A saga da interdependência

Os óbices da geografia foram superados, os problemas nacionais frequentemente exigem soluções supranacionais, a tecnologia não respeita fronteiras – fala-se em espaço aéreo nacional, mas alguém imagina nacionalizar o espaço onde orbitam os satélites…? – e o meio ambiente é preocupação transnacional. Em suma, a humanidade está globalizada, nenhum país se pode supor sujeito a “marolinhas” quando o mundo está sob temporal.

A era da soberania supostamente absoluta (sempre mais verdade para os poderosos) evolui para uma nova era de soberania relativizada, de contornos ainda incertos, com a mundialização do espaço econômico e sem que o espaço político deixe de ser territorial-nacional. O poder dos Estados em seus territórios tem de se compatibilizar com normas internacionais, com o poder de outros Estados e com interesses de empresas transnacionais. Essa evolução teria provocado confrontos de risco no clima dos autoritarismos do século 20 e preocupa o mundo atual. O tema é polêmico e há que conduzi-lo evitando precipitações imprudentes e a resistência ideológico-emocional sem compromisso com a realidade.

A adesão brasileira à globalização econômica – e à regionalização, ajustada à globalização, e não antagônica a ela – é necessária, até inexorável. Convém avançar com prudência, mas sem remar contra a maré da época. Se bem conduzida, ela é mais útil à redução da pobreza do que a economia fechada, que em geral protege setores influentes, concentra renda e condena o povo a pagar mais por escassa qualidade. Boa parte dos problemas brasileiros se encaixa na equação global (haja vista a crise de 2008-2009) e as políticas pretensamente adiabáticas ou mesmo as basicamente regionalistas não a resolvem. Na verdade, o Brasil nunca as praticou: seus ciclos de desenvolvimento, dos 1500 até agora, sempre foram vinculados ao comércio extrarregião. O regional, hoje razoável, embora sujeito a espasmos protecionistas da Argentina, até recentemente havia sido irrelevante.

Embora a lógica aponte para a integração, há quem a veja como uma nova versão do imperialismo (um Methuen global, como a Alca teria sido um Methuen hemisférico…), agora norte-americano, a despeito da crescente presença asiática nela! Essa relutância é exercida, no Brasil, por políticos e parcela da intelligentzia motivados mais por paixão do que por convicção; por setores econômicos que, despreparados para a competição, porque não se prepararam enquanto protegidos, confundem protecionismo com patriotismo; e pelo trabalho organizado, territorializado até em nível infranacional, haja vista a guerra fiscal entre nossos Estados. A grande massa amorfa não se engaja no tema, embora por vezes ocorram mobilizações festivamente emocionais e inconsequentes – esse foi o caso, anos atrás, das pirotécnicas manifestações anti-Alca, realizadas pela massa induzida, cuja imensa maioria desconhecia o significado das quatro letras.

A perspectiva do trabalho sugere um complemento: a afirmação marxista “os trabalhadores não têm pátria” é ilusão; têm sim, a do capital a que estão associados. O internacionalismo social-trabalhista é devaneio, como demonstram a pressão do trabalho em prol da proteção a setores menos competitivos nos EUA e a oposição do trabalho de países desenvolvidos à imigração oriunda dos menos desenvolvidos, que disputa empregos e desvaloriza a mão de obra – tema crítico na Europa, nos EUA e hoje também no Japão.

Cabe aqui a pergunta: o que de prático e propositivo resultou dos festivais antiglobalização – os gaúchos de 2001, 2002, 2003 e 2005, o indiano de 2004, o venezuelano de 2008 e o paraense de 2009, cinco no Brasil? O que resultou do hooliganismo turístico de Seattle, Praga, Melbourne, Cancún, Quebec, Genebra, Paris, Miami, Monterrey e Hong Kong? Da violenta farra anti-G-20 de Londres, em 2009? Todas cidades aprazíveis – a contestação não teria graça em cidades problemáticas, sem alguma atração… Esses festivais são realizados por minorias razoavelmente aquinhoadas pelo capitalismo de seus países de origem, que censuram, usufruindo-o com condições de praticar a pirotecnia contestatória; não há excluídos nos festivais. Os protestos espetacularizam criticamente a globalização, sem oferecer alternativa concreta. Seus porta-vozes declamam o clichê “outro mundo é possível”, sem especificá-lo – não saberiam fazê-lo e a dimensão lúdica dos festivais não exige mesmo que soubessem.

Em suma, a globalização é evolução a ser praticada, sob pena de marginalização nacional. É claro que com algum balizamento regulador, porque, além de ser isso inerente aos Estados ciosos de sua soberania, à globalização convém mais a segurança provida pelos Estados do que a insegurança da desordem internacional. Se não soubermos nos inserir corretamente nela, ainda assim o Brasil continuará em desenvolvimento, porque sua pujança lhe garante isso, mas em ritmo muito abaixo do que lhe seria viável se bem integrado na globalização, “patrioticamente” conformado com 1,2% de participação no comércio global…

O Brasil vem-se conduzindo em razoável equilíbrio, na dupla condição de país não plenamente desenvolvido e tampouco atrasado – o que dificulta sua acomodação numa e noutra condição, exige atenção ao atraso em certos problemas e à condição de desenvolvido, em outros. Esse equilíbrio provavelmente será tumultuado pelo voluntarismo redentorista anti-império se a Venezuela ingressar de pleno no Mercosul, transformando-o de união econômica em ideológico-imaginária. Sob a perspectiva econômica, o ingresso seria em tese positivo e a queda do preço do petróleo talvez modere o redentorismo venezuelano. Mas isso é incerto, regimes dessa natureza tendem a “endurecer” se ameaçados. E o Brasil será arrolado como bode expiatório, segundo apenas para os EUA, até porque essa é a tendência sul-americana.

(O Estado de SP – 25/05/2009)

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