O Globo, 27 de março de 2006 Em “Ascensão e queda das grandes potências” (1988), Paul Kennedy apresentava sua intelectualmente atraente e factualmente controvertida tese do relativo declínio dos Estados Unidos em decorrência dos excessos causados por seu expansionismo militar. Os Estados nacionais eram então os principais atores em assuntos globais. Os desafios lançados pela globalização exigiam, entretanto, novos métodos de abordagem. Em “Preparando-se para o século XXI” (1993), o mesmo Paul Kennedy passa a analisar as forças dinâmicas transnacionais como a explosão demográfica, o impacto das novas tecnologias, as correntes migratórias, as questões do meio ambiente, investigando por que diversas sociedades reagem diferentemente a novos desafios. “A mais importante influência sobre a capacidade de resposta a esses fatores de mudança são as atitudes, as crenças e a cultura dessas sociedades”, afirma Kennedy. Prossegue o historiador: “Obstáculos culturais às mudanças são comuns, pois ameaçam hábitos existentes, o modo de vida, as crenças e os preconceitos convencionais. Esses obstáculos culturais ocorrem também em sociedades avançadas, não apenas em países emergentes. Países que atingiram o auge e escorregam para o declínio são os que freqüentemente exibem as maiores resistências às mudanças. Tendo atingido o topo sob condições históricas específicas, países em declínio têm dificuldade em aceitar as novas circunstâncias e adotar novas atitudes com maior chance de serem bem-sucedidas.” O curioso é que, pensando nos EUA, Paul Kennedy descreveu o que ocorre hoje na Europa Continental, particularmente na França. Em continuidade aos distúrbios que incendiaram as periferias de grandes cidades francesas no final de 2005, centrais sindicais e organizações estudantis aprovaram em assembléia greve nacional contra o Contrato do Primeiro Emprego. A proposta foi concebida para flexibilizar a legislação trabalhista e reduzir a explosiva taxa de desemprego que atinge os jovens de até 24 anos (22% de jovens desempregados na França, contra 15% na Alemanha e 10% nos EUA). Nas manifestações, o jovem estudante francês embarca numa luta equivocada para garantir privilégios, destruindo suas próprias perspectivas de emprego futuro. A obsoleta legislação trabalhista do modelo social-democrata da Europa Continental produziu taxas de desemprego extraordinariamente elevadas quando comparadas ao modelo anglo-americano de legislação flexível, de inspiração liberal-democrata. Sem as reformas trabalhistas, são destruídos centenas de milhares de empregos, e agora faltam recursos para assistir o enorme contingente de desempregados. As tradições corporativistas do sindicalismo e do funcionalismo público engessam o mercado de trabalho na França, um dos sintomas da euroesclerose social-democrata. Enquanto isso, o “exército industrial de reserva” da China comunista invade os mercados de trabalho no mundo todo, com “salários de fome”, sem encargos sociais e trabalhistas, sentenciando culturas inflexíveis à condenação ao desemprego em massa. A globalização será o algoz da social-democracia.

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