Karl Popper escreveu em 1992 que “os tiranos criam mentiras, acreditam nelas, se tornam escravos delas e desaparecem”. O descolamento da realidade liquida os tiranos. Exemplo recente é do governo argentino, que não gostou da inflação e despediu os dirigentes do INDEC (IBGE argentino). Coisa de republiqueta, de tiranete que prefere criar e acreditar em mentiras.

A tentação de mentir é constante em governos, que se servem de burocratas e intelectuais, às vezes de excelente formação, que abusam de argumentação acadêmica. Tais servidores deseducam e atendem os projetos de poder dos políticos e são depois jogados na lixeira da história. Um avanço republicano (separando e equilibrando poder político e salvando reputações) foi o desenvolvimento de instituições estatais independentes, como Bancos Centrais e os institutos de pesquisas estatais. Trouxeram avanços também na qualidade das políticas e das informações.

A mentira estatal tem conseqüências devastadoras. O sistema de preços, que inclui juros, câmbio e a inflação e as informações sobre energia, indústria, agricultura, são faróis de sinalização para que milhões de pessoas tomem decisões que se aproximem das mais seguras e eficientes. O caso limite em mentiras foi a União Soviética. Ludwig von Mises escreveu em 1920 que sem a referência dos preços, a economia soviética seria impossível. Em 1936, o professor marxista Oskar Lange resolveu o problema com um “modelo”, agradeceu ao “professsor Mises por nos alertar” e propôs “uma estátua de Mises num lugar de destaque no Ministério da Socialização”. Mas outro professor marxista, Robert Heilbroner, em artigo na revista New Yorker em 1992 escreveu que “claro, Mises estava certo”.

Claro para quem? Na América Latina, continuamos tentando “modelar” preços, juros, câmbio, inflação, apesar da falta de ferramental teórico e das evidências empíricas desastrosas. Porque temos tanta dificuldade de aprender com os outros e mesmo com a nossa própria experiência?

A hipótese apavorante é que temos um defeito cultural. Artigo do Fed Minneapolis (set/06), identifica a América Latina como uma aberração por ser a única parte do mundo ocidental que é pobre. Mas mostra o atraso na taxa de produtividade total não por causa do capital humano, mas pelo atavismo à autarquia e ao protecionismo. Política muda isso e começa por informações perto da realidade. Avanços enormes seriam as independências do Banco Central e do IBGE.

O mais visível adversário de BCs e IBGEs independentes é de estirpe autocrática. Acredita que país precisa de projeto; defende a idéia unitária de que todos os poderes, governos e agências devem perseguir tal projeto, guiados por líderes políticos; crê na visão do país único com teoria econômica própria – a teoria geral e pratica dos outros não serve; defende a super-regulamentação – o setor privado tem que também ser guiado. O resultado é um governo enorme e intrusivo e todos, inclusive a arte e a cultura, vivem entre a coerção e incentivos monetários. O ideal deste fascista acidental é a sociedade orgânica gerenciada por burocratas.

Banco Central e IBGE independentes melhorariam a paz política no Brasil. A confiança dos brasileiros aumentaria. Valeria a pena Lula perguntar ao Tony Blair porque ele de imediato cortou os últimos laços com o Banco da Inglaterra e o IBGE inglês. Poder executivo responsável por BC e IBGE cria problemas políticos infernais. Com tais agências independentes, Lula se libertaria desta servidão política e nossa república se fortaleceria.


(O Globo, 11 de março de 2007)

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