A mais grave crise financeira da história econômica contemporânea reacendeu antigos debates sobre as virtudes e os vícios dos “mercados” como mecanismos de coordenação econômica. De um lado, estavam os “fundamentalistas de mercado”. Ingênuos acadêmicos em torres de marfim, orgulhosos de suas brilhantes concepções teóricas, explicando a eficiência dos mercados como complexos mecanismos de transmissão de informações, de coordenação de conhecimento e esforços descentralizados, de cooperação econômica em escala planetária entre bilhões de desconhecidos. De braços dados, as autoridades monetárias na maior (Estados Unidos) e na mais dinâmica (China) economias do mundo, inebriadas pelo ritmo acelerado de crescimento global sincronizado decorrente do excesso de liquidez que fabricaram. Nessa mesma turma, financistas inovadores e inconsequentes, criando ativos tóxicos fora dos balanços dos bancos, em ambiente de regulamentação frouxa, construíram uma extensa plataforma de créditos, sustentada pela alavanca do endividamento, sobre uma estreita base de capital. Foram todos parceiros e beneficiários de um formidável processo de criação de riqueza, tendo por alicerce uma pretensão que agora se revela extraordinariamente equivocada: atribuíam aos mercados propriedades sobre-humanas, como a “perfeição”, a “presciência” e a “infalibilidade”.

De outro lado, os “tribalistas atávicos” de todos os tempos, os socialistas nostálgicos e os conservadores, reacionários à ordem emergente, amaldiçoam os “mercados” exatamente por serem humanos, demasiadamente humanos, em sua “imperfeição”, sua “falibilidade” diante das incontornáveis incertezas do mundo. Se fomos reduzidos, por extenuante e trágica experimentação ao longo do século XX, às economias de mercado e às democracias liberais, e se nada humano é perfeito ou infalível, não passa de oportunismo ideológico, de desonestidade intelectual e ignorância histórica ressuscitar utopias socialistas ainda mais perigosas que as fantasias dos mercados perfeitos. Ainda mais no atual episódio, em que a contribuição dos governos para as farras da moeda e do crédito deixou digitais em toda parte.

A colossal crise que experimentamos abala os alicerces da Grande Sociedade Aberta? Em que medida serão atingidos os fundamentos democráticos de nossa síntese ocidental de duas variantes iluministas – a liberal e a socialista –, com suas economias de mercado e suas redes de proteção social? Como impedir a ruptura dessas redes de solidariedade ante a mais selvagem espécie de capitalismo que já existiu: o mercantilista chinês, promovido por um regime político totalitário? A guerra mundial por empregos vai deflagrar ondas de protecionismo, interrompendo os movimentos de capitais, os fluxos de comércio, as correntes migratórias e, consequentemente, o processo de globalização? As finanças públicas já comprometidas com as redes de gastos sociais nas democracias representativas resistirão aos impactos financeiros da crise atual? É uma ameaça ao Brasil a perspectiva de degeneração das democracias latino-americanas em meio ao caos econômico, à repressão política e à asfixia da livre imprensa, tradicionalmente associados aos experimentos socialistas radicais?

Os fundamentos da civilização ocidental são as democracias representativas, as economias de mercado, o estado de direito, as liberdades individuais e nossas redes institucionais de solidariedade. São instituições sociais evolucionárias, como a linguagem e a escrita, a moral e os costumes. São mecanismos de comunicação, cooperação e coordenação social, gradualmente esculpidos – nem sempre conscientemente. Quem inventou a linguagem? Como se modificam os costumes? Como nasceram as leis? Quando surgiram os mercados? São instituições que nos acompanham há tempos imemoriais. O Instituto Millenium promove a defesa desses fundamentos, aperfeiçoados ao longo da história humana. Reúne intelectuais e empreendedores para a discussão de temas contemporâneos, à luz dessa perspectiva civilizatória. Junte-se a nós nesse debate.

(Época, 08/06/2009)

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