A tragédia grega e o Brasil

O esforço é para a tragédia grega ter um final feliz. Difícil imaginar na literatura de Sófocles e Eurípedes. Mas não é impossível, existem finais neutros na literatura.

O mesmo vale para a economia grega em 2010. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE) tentam reescrever o drama grego com muito dinheiro: o pacote anunciado no final de semana foi de C 110 bilhões para os próximos três anos. O problema que interessa não é o grego, mas o europeu. O pacote para a Grécia é a primeira batalha para defender Portugal, Itália, Irlanda, Espanha (os outros membros do grupo PIIGS, na sigla em inglês) e, talvez, o euro. E o Brasil? O pacote anunciado foi especial em vários aspectos. Pela primeira vez o FMI está envolvido no pacote de ajuda — e no monitoramento dos ajustes econômicos — a um país da área do euro (depois de sua criação). O FMI colocou à disposição da Grécia um pacote sem precedentes. Foram C 30 bilhões, o que corresponde a aproximadamente 3.200% da quota da Grécia no FMI, em comparação com os pacotes de 1.200% da quota da Letônia, recentemente, e de 2.000% da quota da Coreia na crise da Ásia, que eram os maiores até o da Grécia.

Também especial foi a participação dos países do euro no pacote. Antes se entendia que não haveria corresponsabilidade fiscal entre os membros da União Monetária (art. 125 do Tratado de Maastricht) — o que significava (para os alemães, certamente) que não haveria resgate dos outros países. Agora, os países da zona do euro disponibilizaram C 80 bilhões distribuídos entre os seus membros. O tamanho da ajuda corresponde a 0,9% do PIB dos países do euro, o que deve aumentar a dívida já elevada desses países (inclusive dos outros PIIGS que participaram do pacote).

A pergunta que não quer calar: se a pequena Grécia custou quase 1% do PIB, quanto será(ia) o custo para salvar os outros PIIGS? A Europa tem esse dinheiro após a crise do ano passado? A palavra “resgate” camufla a dureza dos ajustes que a Grécia teve que se comprometer para fazer jus ao pacote anunciado. Estima-se que a Grécia terá uma queda do PIB de 4% este ano, seguida de -2,6% no ano que vem, só voltando a crescer 1,1% em 2012. O déficit público terá que ser reduzido num total de 11% ao longo de três anos. Após anos vivendo como os deuses, será que o povo grego está preparado para um longo período de ajuste e recessão? A alternativa amarga é o calote na dívida e, talvez, a saída forçada do euro.

Mesmo que haja compromisso do povo grego com o ajuste, ainda há outros riscos a considerar. No curto prazo, os governos terão que aprovar os empréstimos nos respectivos parlamentos, uma tarefa dura politicamente. No médio prazo, questiona-se a capacidade de a Grécia retomar o crescimento, já que seu mercado doméstico estará comprimido (pelos ajustes nos salários) e a paridade do euro não permitirá um grande ganho de competitividade. Finalmente, existe o risco de uma dívida de 150% do PIB ainda ser impagável, mesmo depois de todo o esforço dos gregos e troianos (digo, alemães, franceses, etc.).

O resgate à Grécia importa na medida em que é o primeiro bastião, de vários, na defesa última do próprio euro e do projeto político da União Europeia. Deixar a Grécia declarar moratória (e talvez sair do euro) seria perigosamente admitir a primeira derrota nesse percurso.

Dizem que a palavra “tragédia” vem do grego antigo, do bode (tragos) e seu canto (ode). Eram os seres meio bodes que cantavam para o deus grego Dionísio.

No Brasil, temos que ter cuidado com o canto que induz a acreditar que a economia não se encontra superaquecida, apesar do crescimento de dois dígitos e do aumento de inflação no primeiro trimestre do ano. Ou que o Brasil não precise de mais reformas para avançar.

É o momento de tirarmos o canto desses meio bodes da sala e alavancarmos na atual boa reputação internacional do Brasil para continuar desenvolvendo e gerando prosperidade. O risco é embriagarse com o canto dos meio bodes e desenhar um futuro incerto, de oscilação entre momentos prósperos com decepções. O drama grego dificilmente tem final feliz. O drama do Brasil tem toda a chance de terminar bem, mas requer perseverança e maturidade nas decisões atuais e futuras de política econômica.

Fonte: Jornal “O Globo” – 04/05/2010

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