A vida tem preço e é cara

A coluna da semana passada, sobre a regulamentação que a Anvisa tenta impor às farmácias, provocou vários comentários. Agradecendo, deixo de lado as mensagens de apoio aos pontos de vista que apresentei e relaciono algumas opiniões contrárias, todas de farmacêuticos e estudantes de Farmácia. (A coluna pode ser consultada no arquivo do Estadão ou em www.sardenberg.com.br, item Política Econômica.)

Sobre o comércio ou o não comércio:

“Precisamos mudar a ideia de que medicamento é dinheiro, é comércio. Farmácia ou drogaria é um estabelecimento para cuidar da saúde das pessoas.”

“Farmácia, antes de tudo, é um local onde há a promoção de saúde. Porém, hoje, no Brasil, esse conceito está perdido. É comércio, disputa de mercado (não que eu ache errado lucro em farmácia), e ignoram-se dados que mostram os perigos da automedicação.”

“Se a venda é livre nas farmácias, também deveria ser nos supermercados.”

“Não é correta a venda de não-medicamentos nas farmácias porque esses produtos retiram o foco do farmacêutico. Ela toma um tempo que poderia ser empregado em análises mais profundas das prescrições médicas, com relação a possíveis interações medicamentosas.”

Como diz muita gente, a vida não tem preço. E está errado. A vida tem preço e é muito cara.

Basta pensar em quanto custa desenvolver um novo medicamento. A conta é de bilhões de dólares. Se a companhia não tiver a segurança de que receberá de volta seu investimento – comercializando e fazendo lucro com o produto – não haveria nem Viagra nem o coquetel antiaids.

Acrescente aí o custo dos hospitais, da distribuição e comercialização de medicamentos, dos salários dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos e se verificará que há um complexo circuito econômico. Pode-se não gostar, mas tudo ali é, sim, dinheiro e comércio.

Pode ser, também, um local onde se promove a saúde. Mas não pode ser um lugar no qual se substitui a assistência médica.

Como diz um dos nossos críticos, um papel essencial do farmacêutico é fazer “análises mais profundas das prescrições médicas, com relação a possíveis interações medicamentosas”. Isso porque o farmacêutico deve entender mais de medicamentos do que os médicos. Infelizmente, porém, essa é uma função pouco praticada por aqui.

Por outro lado, a venda de não-medicamentos na farmácia (balas, cartão de telefone, etc.) pode, ao contrário, ajudar o verdadeiro farmacêutico. Já que essa venda ocorre porque dá lucro, outros funcionários podem cuidar dela, deixando o farmacêutico livre para suas atividades específicas.

E, sim, se um medicamento pode ser vendido livremente em farmácias, poderia ser vendido em supermercado.

Sobre uma suposta incapacidade do consumidor:

“Existem – e muitas – pessoas que compram medicamentos só porque está na oferta ou porque a embalagem é bonita.”

“Um povo ignorante como o nosso não sabe que medicamento não é bala de morango… Não se trata de esconder (medicamentos) das pessoas, mas de fazer com que elas expliquem o que estão sentindo e aí alguém capacitado indicará o que a ajudará.”

“O brasileiro está culturalmente aderido à automedicação.”

“Nós, brasileiros, somos ignorantes até mesmo em reconhecer um genérico!”

“Será que o jornalista sabe de todos os riscos que uma simples aspirina esconde? É só entrar no Google e pesquisar…”

Com o devido respeito, a realidade é bem diferente. Genéricos, por exemplo: colocados no mercado, seu consumo aumentou de modo extraordinário. Diversas pesquisas indicam que as pessoas procuram os genéricos, quando há boa informação sobre o assunto. O papel das agências públicas e dos farmacêuticos seria simplesmente garantir essa informação.

E, por falar em informação, hoje está amplamente disseminada, como disse um dos críticos. É só entrar no Google.

Pode ser que uma ou outra pessoa, meio desequilibrada, compre um remédio pela embalagem, mas certamente não se pode dizer que os consumidores sejam assim ignorantes. Também não faz sentido supor que a pessoa entre na farmácia para comprar uma bala de morango e, já que está lá mesmo, resolva comprar um antibiótico.

A automedicação existe, mas quando a assistência médica é precária. Parece sensato supor que uma pessoa normal, sentindo-se mal, vai procurar um médico. Não o fará quando o médico não estiver disponível ou quando não puder pagar. Aí, sim, vai procurar o medicamento por conta própria. E aqui, não raro, o farmacêutico faz o papel de médico e prescreve o medicamento, como, aliás, sugeriu um dos farmacêuticos que nos escreveu. Está correto isso?

Na verdade, o papel do governo, aqui, não é tirar os remédios livres da gôndola, mas criar condições para que as pessoas possam ir ao médico.

Sobre os riscos dos medicamentos:

“Utilizados de maneira incorreta, causam sérios danos à saúde e até a morte.”

“A maior parte dos casos de intoxicação decorre de medicamentos. Tente comprar uma “simples” aspirina num país desenvolvido e comprometido com a saúde da população sem receita médica.”

Os casos de intoxicação ocorrem com medicamentos cuja venda é restrita e só pode ser feita com receita, e com receita retida. Muitas pessoas conseguem receitas, mas a maioria adquire seu medicamento sem receita.

Ora, este é o problema das autoridades: como é que se compra sem receita o que exige receita?

A agência governamental tem o papel justamente de, avaliando os riscos oferecidos por cada remédio, determinar quais têm a venda livre e quais, restrita. E, depois, tem o papel de garantir que essa norma seja cumprida.

Determinar que aspirinas não podem mais ficar expostas na gôndola, mas escondidas atrás do balcão, não vai impedir a venda ilegal de anfetaminas.

E, sim, a gente compra livremente aspirina em qualquer país desenvolvido.

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