Sábado, 3 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Abrir ou fechar embaixadas ajuda no comércio?

O novo chanceler brasileiro está realizando uma saudável análise custo-benefício de alguns dogmas da diplomacia brasileira dos últimos treze anos. José Serra mandou levantar o impacto no orçamento do Itamaraty da abertura de dezenas de postos diplomáticos na África e no Caribe.

Provavelmente chegará à conclusão de que eles oneram muito pouco o bolso do contribuinte ou mesmo o mirradíssimo orçamento do Itamaraty. Perceberá também, na mesma medida, que tais postos trazem poucos resultados economicamente tangíveis para o Brasil.

O Professor Marcos Degaut, da Universidade da Flórida Central, indicou com precisão os resultados pouco expressivos de nossa “hipertrofia” de postos em artigo publicado nesta Folha no ano passado.

O Brasil conta hoje com 226 postos em todo o mundo, número superior ao de Alemanha ou Itália, dois gigantes do comércio. Abrimos nos últimos anos representações em Belmopã, Basse-Terre, Castries, Conacri, Cotonou, Cartum, Gaborone, Malabo, Nouakchott e Uagadugu.

Ainda assim, pouco disso se extraiu comercialmente. O próprio ex-chanceler Mauro Vieira, também em artigo nesta Folha, curiosamente intitulado “As embaixadas e a diplomacia de resultados”, acabou por evidenciar, sem querer, o “teto baixo” dessas iniciativas.

Vieira indica que “nos 18 países africanos em que o Itamaraty abriu novos postos, as exportações de bens saltaram de US$ 736 milhões para US$ 1,6 bilhão entre 2004 e 2014. Com o Caribe, o intercâmbio comercial passou de US$ 1,4 bilhão para US$ 6,6 bilhões entre 2003 e 2014”. O benefício incremental de tais iniciativas pode chamar atenção por sua expansão percentual. Contudo, em valor absoluto exportado, os resultados são ínfimos.

Talvez mais importante do que descobrir quanto tais representações custam para o Brasil seja perguntar o porquê delas terem sido abertas. Isso seguramente revelará a escala de valores aplicada pela gestão diplomática brasileira nos anos Lula-Dilma. Evidenciará também o quanto uma visão de mundo cronológica e ideologicamente inadequada desperdiça energia e foco.

Esse aumento de representações não se deu em decorrência de um esforço bem estruturado de converter o Brasil numa potência do comércio exterior. Se este fosse o caso, mais valeria robustecer agências de negócios —algo que, à semelhança de outros países, poderia ser realizado em parceria público-privada— nas cidades globais da América do Norte, Europa ou Ásia.

Os objetivos de tal expansão foram (i) angariar simpatias e votos em organizações multilaterais como ONU e OMC e (ii) traduzir em termos de maior presença física a filosofia diplomática de privilegiar relações “Sul-Sul”.

No fundo, a ambição de tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, ou atuar como “árbitro” da relações Norte-Sul no âmbito da OMC. Ora, há três anos elegemos um brasileiro —Roberto Azevêdo, por sinal um excelente diplomata— para dirigir a OMC. Isso mudou, ou ao menos começou a mudar, de forma significativa o papel que o Brasil ocupa no comércio internacional? Claro que não.

Aliás, também em artigo nesta Folha, há três anos o então Ministro do Desenvolvimento, hoje Governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, comemorava a eleição de um brasileiro para dirigir a OMC na seguinte grandiloquência: “É história o empenho pessoal da presidenta Dilma Rousseff, que colocou à disposição de Azevêdo um avião e uma equipe para lhe assessorar na campanha. É história o empenho da presidenta e de todos nós, seus ministros, numa campanha em que em todas as audiências com chefes de Estado e ministros estrangeiros pedíamos votos, na abertura ou no encerramento. Que entre para a história pelas razões mais nobres uma gestão que resgate a importância do multilaterismo e devolva à OMC sua função de reguladora das relações comerciais globais”.

Essa ênfase no multilateralismo é bem conhecida. O Brasil gosta de ser um “bom moço” das relações internacionais”. No mais das vezes, sabe o que quer “para o mundo”. Tem dificuldades, no entanto, de construir uma estratégia em termos do que quer “do mundo”.

Diplomacia e política externa devem ser orientadas, antes de tudo, para os interesses nacionais.

A propósito, é curiosa a reação de muitos quanto ao tom supostamente áspero com que o Itamaraty de Serra rebateu asneiras de alguns governos latino-americanos e da UNASUL sobre a institucionalidade do impedimento de Dilma.

Só na superfície, ou no senso comum, agir diplomaticamente é “colocar panos quentes”, “engolir sapos” ou “ficar numa boa com a turma toda”. Às vezes, diplomacia é abandonar meias palavras; deve-se falar e agir no tom mais severo possível.

É também fazer escolhas o tempo todo —e optar com quem o país se tornará mais ou menos interdependente.

Dilma, em recente tweet, sugere que o novo comando da chancelaria brasileira, ao afastar-se do campo bolivariano, mostra-se “tradicionalmente submisso às grandes potências” e não demonstra “autoridade política ou moral” para invocar o princípio da soberania. E complementa, sob nova direção, o Itamaraty estaria buscando “acordos altamente lesivos ao país”.

Ora, será que alguém consegue pensar em algo mais lesivo para o país e sua imagem no exterior do que o governo Dilma?

Será que países como China e Coreia do Sul, ao direcionarem prioritariamente seus esforços de promoção comercial para EUA e Europa, estão submetendo-se aos desígnios das grandes potências?

Perdoem-me a repetição de termos, mas potências emergentes usam seu comércio com grandes potências para tornarem-se grandes potências. É o que o Brasil deve fazer.

E, nesse redirecionamento de bússola, vamos perceber que hoje no Brasil coordenar esforços internos para a construção de uma estratégia de inserção global conta mais do que sair pelo mundo batendo cabeça.

Exemplo: “evangelizar” as empresas e a sociedade no Brasil para a importância do comércio exterior é mais importante do que odes ao multilateralismo ou multiplicar postos pelo Terceiro Mundo.

Fonte: Folha de S.Paulo, 18/05/2016.

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