Minha avó desconfiava de conversas compridas. Resmungava em alemão: “A gente pode se contorcer e rebolar quanto quiser, o traseiro vai sempre ficar para trás”.

São um espanto os tortuosos discursos atuais para justificar velhas políticas, que pretendem corrigir políticas velhas. Políticas industriais agora são justas e inteligentes; inteligentes quebras de patentes para obter-se preços justos; inteligentes aumentos de tarifas para compensar câmbios injustos; inteligentes bancos de fomento para o Nordeste e América do Sul, para investimentos mais justos; inteligente nova legislação de empresa individual para usufruirmos contratos justos. Inteligentes barreiras contra importações para promover comércio justo. Inteligentes TVs públicas para comunicação mais justa. Todo dia nos surpreendemos com novos exemplos do processo adaptativo e reprodutivo do Estado.

Mas o marketing não é novo e do velho populismo vem tal conceito de justo e de nação. A fanfarra também é populista e velha. E “inteligente” é idéia pirateada de companhia aérea. Em todos os casos aumentam os impostos, a burocracia pública, os custos ao consumidor e as boquinhas. Em todos os casos diminuem o respeito à lei geral e igual para todos, o respeito à propriedade e a liberdade e embota-se a motivação para inovar, empreender e transacionar – cláusulas pétreas da prosperidade.

O problema central é o advento deste deus laico, o Estado, que chegou ao nosso vale de lágrimas prometendo ausência de sofrimento. Pagamento na frente e deleite depois. Mas surgiram dois complicadores. Primeiro, a terra prometida não nos foi entregue e, muito desapontados, convivemos com repetidas exortações de que é necessário mais devoção, mais dízimo e mais tempo. O segundo é que continuamos à imagem de Deus na capacidade de criar e escolher mas também com todas as ansiedades ancestrais relacionadas à fome e à morte prematura. Para piorar, a crença nas promessas do Estado levou-nos a duas conclusões lógicas: a primeira é que a proximidade da terra prometida não justifica mais sangue, suor e lágrimas. A responsabilidade individual, a auto-disciplina, o auto-desenvolvimento e a poupança não valem mais a pena. A segunda é que, se o risco de viver pode ser eliminado pelo deus Estado, aqueles remunerados por risco (empresários) são realmente muito privilegiados. Uma sacanagem.

Mas descobrimos que o Estado não era um deus, mas sim uma máscara atrás da qual estão escondidos seres humanos de carne e osso. Com medos e motivações iguais às nossas – mas armados. Iniciou-se um conflito constante e a sociedade civil tem perdido de lavada.

Mas não era para ser assim. No final do século XIX, o florescimento da sociedade civil e o fim do Estado foram promessas tanto do liberalismo como do marxismo. Santa ingenuidade. “O Estado moderno é uma máquina que se reproduz sem parar. A sociedade civil tem desaparecido quase que totalmente. Fora do Estado, não há nada de nada”, constatou Octavio Paz. No Brasil o Estado tornou-se um ogro que nos submete à permanente humilhação com seu descaramento e sua porno-filantropia. E está sentado ao lado de um ralo mal instalado e entupido, cujo mau cheiro inebria o ogro mas nos intoxica nesta convivência compulsória na busca de pequenos favores, desde passaportes a bolsas-família.

Por isso, em face de complicadas racionalizações de como vamos nos tornar saudáveis, educados e ricos, lembro-me da avó camponesa. Rebolem quanto quiserem, meus amigos. Requebrem à vontade. A pobreza sempre ficará na frente.

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