A aceitação do mal

“Tudo o que é preciso para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam”, disse o filósofo e político Irlandês Edmund Burke (1729-1797), revoltado contra a opressão praticada pelos donos do poder no tempo da Revolução Francesa (1789). Essa frase me ocorreu a pretexto de dois fatos destes primeiros dias deste novembro. Um, os 100 anos da Revolução Bolchevique, que foi a segunda etapa da tomada do poder na Rússia pelos comunistas em 1917. Outro, a passiva aceitação do mal pelo povo brasileiro, conforme pesquisas mostrando a expressiva votação que teriam candidatos comprovadamente corruptos.

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Quanto ao segundo fato, a multidão de votos que os maiores corruptos da história do Brasil – na verdade, da história mundial – receberiam em uma eleição presidencial é algo tão assustador quanto incompreensível. Uma pergunta é: o que leva um povo sofrido, que luta duramente pela sobrevivência, a ser tão tolerante e condescendente com políticos provadamente corruptos, sejam de que partido forem?

O mal não tem, na historiografia mundial, rejeição e condenação pelo povo na proporção do terror que espalha, nem mesmo em relação ao número de pessoas que mata. Tomemos o exemplo do nazismo e do comunismo. Ambos foram implantados por ditaduras ferozes e sanguinárias; ambos mataram pessoas de seu próprio povo em tempo de paz; ambos deixaram um rastro de morte e horror. O nazismo e o comunismo têm semelhanças nesse sentido. Porém, são diferentes nas causas e no número de assassinatos cometidos.

O nazismo subiu ao poder na Alemanha, com Hitler na liderança, em uma circunstância histórica complexa. A Alemanha houvera sido derrotada na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e fora humilhada pelo Tratado de Versalhes, que lhe impôs pesadas indenizações e perda de território. Hitler sugiu como o salvador da nação dilacerada, foi eleito e descambou para o ódio contra pessoas nascidas em seu próprio país, e produziu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O regime comunista surgiu há 100 anos na Rússia, expandiu sua ditadura sanguinária para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, durou 74 anos (1917-1991), cinco vezes o tempo de duração do nazismo, e matou quatro vezes mais que o nazismo. Entretanto, se inaceitável a criação de um Partido Nazista, tem sido normal a criação de um Partido Comunista, inclusive no Brasil, onde a legenda deve lançar candidatos no ano que vem.

Alem disso, o comunismo tem sido objeto de adoração e louvação pública por artistas, intelectuais e políticos, todos agindo pela liberdade concedida por regimes democráticos, liberdade essa que rigorosamente todos os governos comunistas sempre negaram a seu povo. Transportada essa questão para o território do mal da corrupção, ocorre fenômeno parecido. Faça-se uma pesquisa e se verá que a imensa maioria reprova e rechaça a fraude e a corrupção. Entretanto, políticos e burocratas que fraudaram e enriqueceram com dinheiro público aparecem nas pesquisas de intenção de votos com chances de serem eleitos.

É o caso de perguntar: como pode um povo que rejeita o mal garantir a eleição dos autores desse mesmo mal? Alguns talvez o façam por ignorância. Outros, por se recusarem a acreditar que seus candidatos praticaram qualquer mal. Outros mais, por estarem cegos pelo fanatismo ideológico ou partidário. E uns tantos porque nem rejeitam a corrupção e o mal quanto dizem. Na verdade, a corrupção e o mal não crescem e vicejam sem a complacência do povo, que, em última instância, é dado a praticar uma série de pequenos atos de transgressão e ilegalidade. Edmund Burke estava certo: “Tudo o que é preciso para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam”.

Fonte: “Gazeta do Povo”, 10/11/2017

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