A convergência da inflação à meta, já difícil em 2012, será adiada para algum ano depois de 2013

Na semana passada, o Banco Central divulgou mais uma edição da ata do seu Comitê de Política Monetária (Copom). A ata é, ao lado do Relatório de Inflação (publicado trimestralmente), o principal instrumento de comunicação do Copom. Nela os membros do comitê trazem a público sua visão acerca da evolução da economia, seja do ponto de vista da atividade (produção, emprego, vendas), seja do ponto de vista de inflação, assim como de outras variáveis.

A grande surpresa, no caso, foi o parágrafo 35, no qual “o Copom atribui elevada probabilidade à concretização de um cenário que contempla a taxa Selic se deslocando para patamares de um dígito”. Na língua pátria, o Copom praticamente se comprometeu a realizar cortes suficientes para trazer a taxa Selic, hoje em 10,5% anuais, abaixo de 10%.

Nunca antes na história deste país havia o Copom se comprometido com uma meta de taxa de juros; tipicamente seu compromisso era com a meta de inflação, mas estas podem ser apenas reminiscências de um economista se aproximando de seu 49º aniversário.

Para explicar aos 18 leitores a justificativa desse movimento, preciso fazer um breve desvio, pelo que já me penitencio.

A teoria na qual se apoia o regime de metas para a inflação postula que exista a chamada “taxa neutra de juros”, isto é, determinada taxa de juros que, sob certas condições, é coerente com a economia operando próxima a seu potencial e a inflação também ao redor da meta. Isto dito, simplificando exageradamente o trabalho do Copom, quando a inflação (esperada) se encontra acima da meta, o comitê precisa elevar a taxa Selic acima da “taxa neutra”; no caso oposto, deve reduzi-la abaixo da neutra.

Entretanto, segundo o Copom, as mudanças estruturais da economia brasileira nos últimos anos se traduziram em redução da taxa neutra. Posto de outra forma, seria possível hoje, mesmo com juros mais baixos do que no passado, trazer a inflação de volta à trajetória de metas, depois dos desvios consideráveis dos últimos anos.

É bem verdade que houve mudanças relevantes no Brasil, mas não menos verdade que o Copom não apresentou ainda nenhuma evidência mais sólida acerca de qual era o patamar anterior da taxa neutra, muito menos do que seria o patamar atual. Diga-se também que esta não é a primeira vez que tal tese foi apresentada: em setembro de 2010, quando o Copom interrompeu o processo de elevação da taxa de juros, pouco antes da eleição presidencial, também apelou à tese da taxa neutra mais baixa para justificar sua atitude.

Isso permite uma oportunidade interessante de testar a tese. Com efeito, entre o terceiro trimestre de 2010 e o segundo trimestre de 2011, a taxa real de juros no Brasil oscilou ao redor de 6,5% ao ano.
Fosse a taxa neutra de juros mais baixa do que isso, veríamos a inflação recuar de maneira persistente, talvez atingindo até valores inferiores à meta.

Não foi o caso. A inflação, que se achava pouco acima de 4,5% em setembro de 2010, atingiu 7,3% um ano depois, recuando para 6,5% no fim do ano passado.

É fato que os efeitos de taxas de juros sobre a inflação levam tempo para se manifestar, mas, mesmo levando isso em conta, o comportamento da inflação sugere que a tese da taxa neutra mais baixa se revelou um fiasco retumbante.

Considerando ainda que a taxa real de juros no Brasil recuou para pouco menos de 4,5% ao ano, percebe-se que o Copom na verdade dobrou sua aposta contando com uma crise externa cujo impacto teimosamente se recusa a se aproximar do “equivalente a um quarto do impacto observado durante a crise internacional de 2008/2009” postulado em seus modelos.

Vai, portanto, continuar reduzindo a taxa de juros, para alegria de todos os que emprestaram dinheiro a taxas prefixadas. Por outro lado, a convergência da inflação à meta, já difícil em 2012, será adiada para algum ano depois de 2013.

Adeus, meta; até algum dia.

Fonte: Folha de S. Paulo, 01/02/2012

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