Estávamos todos concentrados – literalmente magnetizados – no desfecho do triângulo entre o poderoso e arrogante Antenor Cavalcanti, Maria Luísa, sua esposa anestesiada pelo lado rotineiro do casamento, que acordava de um sono de Branca de Neve ou de Viridiana para a vida autônoma, livre e sujeita aos conflitos que aguardam os corajosos; e Fabiana, a tão idealizada e atraente ‘outra’, que, descoberta nua na cama pela dona da casa do amante, deixa de ser a invejada namoradinha, para virar vagabunda e rameira.

A cena de Paraíso Tropical – magistralmente escrita, dirigida, produzida e interpretada – capricha nos contornos dos personagens e elabora, com merecido e esperado sadismo, o desmascaramento, transformando o flagrante de adultério num raro rito ético de confronto. Realmente, se qualquer pessoa adquire um ar ridículo vestido em alvas cuecas samba-canção, daquelas que chegam aos joelhos e, largas, não deixam ver o real tamanho do soldadinho, imagine como não se sentiu o prepotente Antenor, figura antenada na sua onipotência e autoconsumido por sua capacidade para tudo manipular, ao ser flagrado em ‘trajes menores’ por Ana Luísa.

Arrebatados pela cena, parecíamos uma família inglesa ouvindo um trecho da Bíblia em torno de uma simpática e confortável lareira. Só que, para nós, o foco era a tela reluzente em que se estampava o duro e esperado desfecho de um dos mais sérios e generalizados dramas brasileiros. O confronto pessoal, cara a cara -, raro na vida real, mas onipresente nas anedotas e na dramaturgia – do traidor e do traído, ambos tendo como testemunha surda e passiva o objeto da traição, a prova concreta e inafiançável da infidelidade.

A cena continha tal dose de densidade que lembrava o primeiro adultério do mundo. Não era simplesmente o caso de Antenor, Ana Luísa e Fabiana. Dizia respeito ao que acontece com todas essas práticas que lemos como malandragens, como um mero pular de muro, como um aproveitar-se da máquina administrativa ou do cargo, porque ninguém é mesmo de ferro, quando elas batem de frente com os seus limites. Com suas vítimas que, no contexto do desmascaramento e sem a possibilidade atenuante da dúvida, revelam-se no seu papel de justiceiros e vingadores, portadores que são dos sinais de um outro conjunto de códigos e papéis sinalizadores dos limites, essas fronteiras que os adúlteros assassinaram ou não levaram em conta.

Todas as pontes são arriscadas e, no limite, perigosas. Como ter o melhor dos dois mundos num sistema marcado pela individualidade que exclui? Qual o limite para a motivação individual? Não há dúvida de que a felicidade precisa ser procurada, mas a que preço?

O que o adultério de Paraíso Tropical revela não é apenas esse conjunto de questões, mas o estilo brasileiro de lidar com elas.

Entre nós, não há lei ou princípio que não tenha o seu antídoto e a sua desculpa para ser ignorado ou simplesmente não ser cumprido. Somos um país de juristas exatamente porque as nossas leis são feitas para uma sociedade que tem uma péssima relação com todas as normas que escapam ao contexto, pessoas e situações.

Senão, vejamos. Quando um sindicalista diz que ecologia é coisa de veado, a coisa passa. Por muito menos se esfolaria vivo um, com licença da má palavra, ‘neoliberal’. Se o Evo fizesse com o Celso Lafer, no governo FHC, o que tem feito com o Celso Amorim e com Lula, o Brizola teria pedido, não o fuzilamento, mas o esquartejamento do Fernando Henrique! Por muito menos querem processar o Jabor, num aviso óbvio a quem escreve nos jornais.

Voltando à novela: se o Antenor não fosse tão prepotente, hipócrita e mentiroso com uma Ana Luísa que, por sua vez, foi tão modelada pelas convenções que bloqueiam os conflitos implicados na coragem de ser; e, se a Fabiana não estivesse tão preocupada em ser exatamente o oposto na mulher do Antenor, posando como uma criatura livre das convenções e das obrigações com os serviços da casa, dos filhos e tudo o mais que está implicado no papel de esposa – esse nome fora de moda que suprime o tesão -, as coisas poderiam ser diferentes e ter até uma justificativa. Para tanto, basta ler as entrevistas patéticas das nossas musas quando terminam mais um namoro e ‘ficam sós, mas felizes’, porque estão num entretempo amoroso, já que são loucas por casamentos, mas odeiam ser casadas.

O exagero consistente da novela ajuda a entender melhor os limites do pular a cerca. Ele pega mais fundo, mobiliza mais densamente a nossa sensibilidade, porque todos nós conhecemos essa situação mais como ‘aventura’, ‘paixão’ ou ‘caso inevitável’ do que como um confronto entre desejo e limites. Entre a inocência da esposa leal e confiante e o despudor que transborda da intimidade da casa para o mundo da rua. Da esposa comportada que enterra o marido, a mulher da morte e da organização; para a amante que, sendo a mulher da vida e do orgasmo, sugere – como ocorre na nossa vida política – o rompimento de todos os limites.

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