Afinal, o que querem as mulheres?

Roberta Fragoso (nova)

Era uma manhã quente em Munique no início da primavera. Eu resolvera que se tratava de um esforço demasiadamente largo vencer as barreiras que o aprendizado da língua tedesca me impunha no Brasil e corri para estudar alemão na Baviera. Eis que no primeiro dia de aula, com o constrangimento inerente a todos os inícios, eu observo um par de olhos pretos me observando curiosamente e percebi que estava diante da mágica e da beleza de uma amizade. Ela era islâmica e vestia o chador. Eu, brasileiríssima, com toda a espontaneidade de uma nordestina tagarela. As diferenças eram evidentes e relacionadas a tudo. Mas algo mais forte nos unia e dispensava explicação.

Havia uma troca de gentilezas diuturna: a cada intervalo, um chocolate, um mimo. Um dia ela recusou: começara o Ramadã. Eu, inconformada, mas compreensiva, acompanhei aquela abnegação. Finalmente, um mês depois, o jejum chegou ao fim. E eu, repleta de ignorância: “ufa, agora posso voltar a lanchar contigo!”

A lição que aprendi naquele dia marcou minha vida de tal forma que passei a enxergar o mundo com outros olhos. Ela carinhosamente me explicou: “Vocês, mulheres ocidentais, acham que são livres, feministas e independentes. Mas veja bem. Dificilmente vocês saem de casa sem se preocupar com a aparência. Escravizam-se a partir da imagem. E produzem a autoestima como reflexo da opinião dos outros. Eu, ao me cobrir, revelo qualidades, como capacidade, sensibilidade e inteligência”. E completou: “O Ramadã é o período mais especial para mim. É quando desenvolvo a minha generosidade e me esforço para ser uma pessoa melhor”.

A questão me levou a reflexões sobre o papel da mulher na sociedade e sobre as condições da mulher ocidental. O problema acontece quando algumas feministas se arvoram no papel de ditar o que é “certo”. A tentação da racionalidade parece ser mais forte do que a expressão e a busca da felicidade de todas nós. Por que precisamos elaborar julgamentos morais acerca do outro e da opção de vida que tomou? Ao pretender determinar o “caminho a ser seguido” por todas as mulheres – carreira, sucesso profissional, ausência de valorização do corpo, negação da própria sensualidade, questionamentos quanto à devoção aos filhos, o apego à família e à vaidade – o feminismo de algumas nos impede de sermos verdadeiramente livres e nos amarra a um modelo de “verdade” que talvez não seja aquele que nos faça efetivamente felizes.

Não ouso diminuir a importância das conquistas realizadas ao longo dos séculos. Foi sacrificante chegar onde estamos e eu escrevo na condição de representante dessas vitórias. A excentricidade das pioneiras decorreu justamente da falta de enquadramento nos papéis a elas relegados por uma sociedade machista e misógina. Entretanto, é chegada a hora de sermos livres, a partir de um novo olhar sobre o feminismo, de maneira a criar um discurso de valorização da mulher sem que ela se traia em sua intimidade e gostos pessoais em nome de um discurso de “verdade” abstrato e descontextualizado. Sem negar a importância do passado, mas conscientes da necessidade de remover as distinções que nos engessam. Louvar os progressos obtidos, mas reconhecer que precisamos de causas mais sofisticadas e esclarecidas agora. Enfim, queremos a liberdade para podermos ser quem somos, ainda que haja a ruptura com o discurso sexista e feminista que algumas teimam em reproduzir.

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2 comments

  1. antonio

    Concordo com a mulher mulçumana. A mulher brasileira mostra a bunda, escrava que é. Se ela fosse livre como no Islã vestiria o chador. Isso sim que é pensamento profundo. Parabéns. E feliz dia das mulheres…

  2. Bernardo Santoro

    Esse texto me lembrou 1984: liberdade é escravidão; guerra é paz…

    Já vi bons artigos aqui, assim como artigos ruins, mas artigo usando duplipensar é a primeira vez.