O avanço na popularidade do presidente Lula, verificado nas últimas pesquisas Datafolha e Sensus, guarda clara relação com a percepção mais positiva que as pessoas têm em relação à situação econômica.

Por exemplo: em março último, 20,9% dos entrevistados pelo Sensus disseram que o emprego havia melhorado. Em maio, esse número subiu para 32,3%. Nesse período, a avaliação positiva de Lula subiu de 62,4% para 70%.

No Datafolha, em março, 53% consideraram “ótima/boa” a gestão econômica do governo. Em maio, foram 63%, apenas um pouco abaixo dos que dão nota “ótimo/bom” para o governo (69% contra 65% em março).

Alguém poderia dizer: há algo errado aí, pois as pessoas estão dizendo que o emprego melhorou neste início de ano, o que não aconteceu de fato. O desemprego aumentou, a geração de empregos foi infinitamente menor do que ocorria até outubro de 2009.

Mas aqui aparecem os outros fatores que explicam a altíssima popularidade do presidente Lula e sua resistência aos efeitos da crise. O que importa é a percepção que as pessoas têm da crise e do governo. Essa percepção depende, é claro, da situação concreta. Ninguém estará feliz com o governo sem emprego e sem dinheiro.

Certo, mas há mais do que isso. Quem está empregado e com salário pode, por exemplo, ser tomado pelo medo de perder o emprego. De um modo mais geral, a pessoa pode não ter sido vítima da crise – continua empregada, com os carnês em dia – mas pode sentir que está na linha de tiro. Pode achar que o governo falhou ou está no comando.

Aqui se dá a ação que antigamente se chamaria de “agitação e propaganda” de Lula. Ou, se quiserem, convencimento e persuasão.

Essa ação parte de fatos – o extraordinário momento econômico por que passou o Brasil do final de 2003 até o final de 2008 – e se completa com a mensagem segundo a qual tudo isso se deve a ele, Lula.

Há um monte de argumentos para se mostrar que Lula mais pegou carona do que fez. Começa que o Brasil surfou naquele que foi um dos momentos mais brilhantes da economia global – com crescimento de 5% ao ano e comércio se expandindo a 10% anuais. Todos os países cresceram forte – e nem todos têm Lula. Isso turbinou as exportações brasileiras, o que, de sua vez, deixou uma sobra de dólares que o BC comprou para fazer reservas, as quais permitiram superar a crise internacional e assim por diante.

Além disso, Lula usufruiu de uma estabilidade macroeconômica que começou a ser construída com o Real, em 1994.

Sim, foi mérito dele, e que mérito!, o de manter uma base econômica que criticava. A isso acrescentou a ampliação do Bolsa Família – e pronto.

O passo seguinte foi convencer que nada disso teria acontecido se Lula não estivesse na Presidência.

Colou. Como?

Primeiro, muita propaganda paga. Talvez não exista hoje neste país nenhum jornal, nenhuma tevê, nenhuma rádio sem propaganda do governo federal e suas estatais. Os principais veículos não vivem disso, mas os outros sim, o que os torna mais tolerantes, se não adesistas.

Essa ação se completa com a geração de fatos jornalísticos. O presidente fala todos os dias, sobre todos os assuntos, inaugura o projeto da obra, a pedra fundamental, o primeiro tijolo e por aí vai.

Nessa quantidade, sobram bobagens, claro, mas o presidente encontra ou tem quem encontre para ele alguns bons slogans, bons motes.

Como é praticamente obrigatória a cobertura do presidente, Lula usufrui de amplo espaço na grande imprensa independente.

E reparem: não dá entrevistas que permitam ser contestado pelos jornalistas. Fala, fala o seu discurso.

Um outro ponto importante é o ativismo. Nem tanto fazer, mas parecer que faz muita coisa. O presidente aparece em tudo quanto é canto, viaja o tempo todo, lança projeto atrás de projeto. Aquela refinaria a ser construída em Pernambuco, por exemplo, mal está na terraplenagem, mas quantos eventos já não rendeu?

E toma obras dos outros. No PAC, por exemplo, estão obras de governos estaduais e de empresas privadas que seriam feitas de qualquer modo.

O último, e dos mais importantes, ingrediente do sucesso de Lula está na oposição, que, passados mais de seis anos de governo, ainda não sabe como se opor.

Vai acabar emplacando a Dilma.

(O Globo – 04/06/2009)

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