Julio Hegedus

Foi mais uma semana dura para os mercados, para se esquecer, agora não mais por motivos alheios a nós, como as eleições norte-americanas, mas por motivos domésticos, gerados nas hostes governamentais e na sua complicada base de apoio no Congresso. Se pareceu a uma “tempestade perfeita”, numa conjunção de fatores negativos que mais incertezas devem gerar no horizonte de governo do presidente Temer. Será que, nesta toada, ele conseguirá terminar o mandato em 2018? Esta é a pergunta que todos se fazem.

O que houve?

Tivemos a demissão de Marcelo Caleiro da Cultura, acusando o articulador político do governo Geddel Vieira de fazer tráfico de influência. Tudo porque ele, acertadamente, vetou a construção de um prédio em área de preservação histórica em Salvador. Depois caiu Geddel Vieira, argumentando que “se o problema era ele, estava resolvido”. Fica, no entanto, no ar uma sensação amarga de impunidade e “capitalismo de compadrio”, algo tão caro, já que boa parte do governo, inclusive Temer, se posicionou contra Caleiro e a favor de Vieira. Foi um triste a desnecessário espetáculo.

Nenhuma novidade até então. Este é o PMDB, nas suas nuances e interesses, nem sempre convergentes. O problema é que Michel Temer entrou no embate para blindar o seu articulador político, o que pegou mal, muito mal para os mercados. Até porque, Caleiro, numa atitude inusitada (correta ou não, agora não importa) enviou ao Ministério Público uma série de gravações em conversas entre ele, o presidente Temer, Geddel Vieira e Eliseu Padilha. Em todas, a pressão para não levar adiante esta contenda foi regra.

Em paralelo, como tragédia pouca é bobagem, num movimento não menos explosivo, grande parte do Congresso se rebelou contra o projeto “10 medidas contra a Corrupção” e a “delação premiada da Odebrecht”. Tentaram deturpar o projeto e esvaziar a delação, incluindo na pauta um adendo de “anistia ao caixa dois”. Foi um ato de desespero total que, mais uma vez, pegou muito mal.

A pronta resposta da sociedade organizada, da OAB, do Ministério Público, dos procuradores da República e, principalmente, do juiz Sergio Moro, em nota divulgada na imprensa, acabou levando os congressistas a recuar. Deixaram a discussão para esta semana. Caso esta anistia seja aprovada, os envolvidos na Lava-Jato serão inocentados. Seria o fim da Lava-Jato. Na verdade, a reação do Congresso mais pareceu uma tentativa de tentar esvaziar a “delação da Odebrecht”. A resposta da sociedade, no entanto, tratou de recolocar as coisas no seu lugar.

E o mercado e a economia?

Como responderam a tudo isso? Da pior forma possível. A bolsa de valores operou volátil ao fim da semana, o dólar beirou os R$ 3,42 e os ativos de risco se volatilizaram nervosamente.

E agora? Como pensar numa retomada de crescimento em ambiente tão confuso?

Estimativas recentes já consideravam o PIB recuando 3,6% neste ano e não mais de 0,8% em 2017. No terceiro trimestre, o PIB deve ter recuado algo em torno de 0,8% contra o trimestre anterior, dado o fraco desempenho de vários indicadores antecedentes, e no quarto deve se recuperar “na margem”, mesmo que ainda mantendo uma variação negativa de 0,4%. Como já dito antes, a reforçar isso o desempenho ainda fraco do varejo e da indústria, ainda em processo de “desova de estoques”. As empresas e as famílias seguem em “desalavancagem” lenta, e o endividamento é excessivo. Pesquisas do varejo indicam que 80% do 13º salário, neste final de ano, devem ser usados para pagar dívidas (PIB do terceiro trimestre sai dia 30/11).

Dados do IBC-Br, prévia do PIB nacional, reforçam isso. No período entre julho e setembro, no terceiro trimestre o recuo foi de 0,8%, contra o anterior, sendo que no mês de setembro o recuo foi de 0,1%. Decorrente disso, no ano, até setembro, o recuo já chega próximo a 5%, mesmo que uma suave recuperação sazonal aconteça neste final de ano, dada a proximidade das festas de Natal e Reveillon. Isso já começa a se refletir nos dados de confiança da FGV.

Em novembro, a maioria mostrou queda, talvez já contaminados pelo clima político mais açodado, um ritmo de ajuste fiscal mais lento, assim como uma estratégia de afrouxamento monetário mais cautelosa.

Em novembro a Sondagem da Construção Civil recuou 4,4% contra outubro; a do Comércio 4,4% e a do Consumidor 4,0%, num claro sinal de impacto pelo desemprego e o endividamento elevado entre as famílias. A Sondagem da Indústria recuou 1,8% em outubro, embora a prévia de novembro tenha mostrado alguma reação (ver gráfico ao fim) e a de Serviços (ainda a ser divulgada) recuou 2,1% nesta mesma base de comparação.

Isto demonstra que a recuperação da confiança, nestes sete meses de governo Temer, parece já estar se esgotando, diante da divulgação de poucas novidades positivas no front econômico e muitas negativas no político. Este, aliás, é um ponto chave. Pelo fato do governo Temer ser de transição, sem uma base eleitoral, acaba tendo que sofrer o revés do divisionismo e da polarização. Neste contexto, os tempos político e econômico acabando caminhando em ritmos diferenciados, o primeiro, mais atrapalhando do que ajudando, e o econômico acabando por afetado pela contaminação do primeiro.

Importante considerar também, nesta análise, como dito acima, que a política de juros deve se mostrar mais cautelosa em 2017, em sintonia com o avançar do ajuste fiscal e das reformas, mas também, reflexo do câmbio mais depreciado e, talvez, um ritmo mais acelerado nas elevações da taxa de juros de curto prazo, a Fed Funds nos EUA. Isto deve levar o BACEN doméstico, como já dito, a ser mais cauteloso, cortando a taxa de juros de forma mais gradual. Sobre isso, falemos mais na semana que vem.

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