Votei em José Serra em 2002, mas não compartilhei das previsões alarmistas produzidas pela vitória de Lula. Minha tranquilidade naquela ocasião baseava-se no pressuposto de que se o candidato petista houvesse vencido uma das eleições presidenciais anteriores, aí sim o efeito seria desastroso. Nem ele nem o Brasil estavam preparados para obter bons resultados com o PT no poder. Mas ambos haviam evoluído de tal forma, ao longo dos anos 90, que era sensato nutrir expectativas promissoras ante o então novo governo. Em 2002, expressei essa opinião em artigos publicados, em outubro, no Jornal do Brasil e no jornal chileno “La Tercera” e, em novembro, no “Buenos Aires Económico”. 

No tocante à evolução de Lula, percebia-se que o então presidente eleito não era igual ao candidato de 1990, 1994 e 1998. Sua nova imagem sugeria que havia compreendido tanto a inviabilidade da plataforma defendida durante mais de vinte anos, quanto, também, o fato de que um eventual fracasso de seu governo significaria o fim do projeto PT. Ademais, tudo indicava que sua ascenção ao poder representava um passo em direção ao sincero combate à corrupção.

Sob o ponto de vista da evolução política e econômica ocorrida no Brasil, era óbvia a escassez de espaço para o sucessor de Fernando Henrique, qualquer que fosse ele, alterar substancialmente os rumos do país. Extravagâncias em políticas públicas ameaçariam as condições de governabilidade. Em outras palavras, o Brasil evoluíra de tal forma que dificilmente assimilaria, sem violência, políticas do tipo anunciado em várias campanhas pelo candidato Lula.

Porém, ao longo do primeiro mandato do presidente Lula, constatei que os motivos dos que temiam sua eleição, assim como a minha expectativa otimista, estavam equivocados. Os temores provinham da convicção de que políticas desastrosas arruinariam a estabilidade alcançada com o Plano Real, afastariam investimentos estrangeiros, inibiriam a expansão de empresas instaladas no país e deflagariam intranquilidade social. Felizmente, nada desse gênero aconteceu, a não ser a acintosa tolerância ao vandalismo praticado pelo MST. Em compensação, os integrantes do atual governo adotaram outros comportamentos inquietantes vis à vis o futuro do país, motivados principalmente pela disposição de tudo fazer para continuarem no poder.

Quanto ao meu erro, consistiu em acreditar que a eleição de Lula simbolizava uma renovação saudável da paisagem política nacional. Como as raízes sociais do PT contrastam das prevalecentes nos partidos que já comandaram o país, justificava-se a curiosidade positiva que, afinal, transformou-se em frustração. O que aconteceu de fato foi a consolidação dos maus costumes na vida pública e a invasão de companheiros do PT aos cargos de natureza técnica das estatais. Quanto à sinceridade no combate à corrupção, meu equívoco foi drástico. Acertei apenas na continuidade da política monetária herdada da administração FHC. 

As mistificações e atitudes preocupantes emanadas do Palácio do Planalto são tantas e tão amplamente divulgadas, que se torna dispensável repeti-las neste artigo. Porém, merece destaque uma das atitudes mais ultrajantes entre as assumidas pelo chefe de Estado: o patrocínio da candidatura de Dilma Rousseff, personagem desprovida de um passado que a qualifique a exercer a presidência. 

Em primeiro lugar, essa candidatura surgiu através de uma postura autoritária, inadmissível em uma democracia respeitável. Isto é, o presidente a nomeou candidata do PT sem obedecer o procedimento correto de deixar a escolha nas mãos do partido, ainda que com sua legítima participação no processo decisório. A maneira absolutista pela qual Lula impôs o nome de Dilma Rousseff, superou a exercida no México até recentemente, onde durante décadas uma falsa democracia permitia ao presidente da república decidir quem seria o candidato do partido situacionista, o PRI. 

Em segundo lugar, desafiando a ética e as normas regulamentares de eleições no Brasil, o presidente da República deu partida, há muito tempo, à campanha eleitoral de sua canditada. O fato de Dilma Rousseff ser, desde muitos meses, carregada à tiracolo para viagens, inaugurações e eventos de toda espécie, aos quais não cabe a presença de um ministro chefe da casa civíl, mas sim de um candidato já lançado, constitui uma afronta à inteligência da população. Ademais, pelas frequentes declarações da candidata, é fácil prever que, se for eleita, dará continuidade às iniciativas mais deploráveis do governo atual, inclusive na área de política externa.

Ao final do primeiro mandato do presidente Lula, já me dava por satisfeito com o experimento petista e, então sim, sua reeleição me alarmava. E, no momento atual, a hipótese de Dilma Roussett vencer me provoca pesadelos. As chances de que essa hipótese não se confirme dependem, entre outros fatores, da capacidade dos demais candidatos de convencer os eleitores de que agora chega de aturar o populismo matreiro do estilo Lula/PT de governar.

 

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6 comments

  1. Anderson Oliveira

    Perfeito!

  2. Francine

    É uma vergonha a postura de Lula, realmente, tens toda razão. Faço minhas tuas palavras. Ao mesmo tempo que faço votos que a população brasileira saia do atual estado de inconsciencia e vote com mais responsabilidade e visao.
    Tomara!

  3. Norah de Moura Castro

    Artigo lúcido, equilibrado, sem compromissos ideológicos,o que é raro.

    Excelente.

    Norah de Moura Castro

  4. Henrique Samet

    Prezado Marcello Averburg

    Espantou-me a espécie de inocência política expressa através de seu artigo apoiando José Serra. Ele é bastante parcimonioso além de contraditório.

    Ninguém pensa em renovação “saudável” e diminuição da corrupção quando não a está comparando com um passado remoto e próximo, o que equivale dizer que reconhece sua existência e sobrevivência em governo anterior ao Lula além do próprio

    Isto é exato. Os mesmos que eram mal vistos a época como apoiando e fazendo parte do governo de FHC hoje são igualmente mal vistos apoiando e fazendo parte do governo Lula e apoiando Dilma.

    Lembra-se de Jader Barbalho et caterva?

    Isto me leva a crer que sua parcimônia se deve a uma posição estreita no que se refere ao exame de qualidades de governo. Tanto FHC (que subornou parlamentares para obter a extensão da possibilidade de se reeleger) quanto Lula usaram e abusaram de cooptação de natureza fisiológica menos por defeito de caráter e mais por estarem prisioneiros de um sistema que só permite obtenção de maiorias mediante “suborno” em suas diferentes vertentes.

    Logo, não é por aí a “redenção do Brasil”.

    O único avanço institucional brasileiro maior só será possível se a competição eleitoral levar a um segundo turno. Se alguém quer realmente o bem do Brasil deve torcer para isto tanto quanto para a seleção brasileira no próximo mundial.

    Se a competição não se polarizar surgirá uma terceira força que, mesmo não vencendo, poderá ser decisiva para o derradeiro embate no segundo turno evidentemente dando seu apoio mediante pacto escrito em torno de cláusulas obrigatórias do exercício do próximo mandato presidencial. Evidentemente não estou pensando no PSOL e outros partidecos inexpressivos. Se Ciro Gomes não competir a novidade será Marina Silva. Se atingir pelo menos 10% do eleitorado seu candidato José Serra terá chances de fugir das opções tradicionais até hoje inevitáveis.

    Pense nisto na hora de votar pelo bem do Brasil.

    Henrique Samet

  5. João Nemo

    Ótimo artigo, honesto e claro na expressão das idéias. Mas a “postura autoritária” que levou à indicação de Dilma é a mesma, que de forma evidente ou disfarçada, Lulla et caterva aplicam a todas as suas interferências. Quanto ao aspecto ético, me surpreende que alguém um dia tenha acreditado nisto. Talvez nunca tenham visto um sindicato de perto.