Esta é a indagação que todos se fazem neste momento de stress nos mercados. Nesta semana que passou, inclusive, foram intensas e atordoantes notícias, tanto no campo político como no econômico.

No político, partimos de uma onda de manifestações no domingo passado nas principais capitais do país, com protestos contra a corrupção e o governo Dilma, para uma série de acontecimentos que reforçam o clima de tensão entre governo e parlamento. Para piorar, a Operação Lava-Jato continuou no foco das atenções, causando desgaste ainda maior na classe política. Tivemos mudança de ministro, boatos de reforma ministerial, vazamento de relatório polêmico da SECOM e, por fim, a Pesquisa Datafolha de popularidade da presidente, no pior nível desde setembro de 1992, com apenas 13% de avaliação entre bom e ótimo e 62% entre ruim e péssimo.

No econômico, o ministro Levy continuava negociando com o Congresso a aprovação das medidas fiscais. Conseguiu algum avanço na correção do IR, antes, vetada em 6,5% e definida em 4,5% e agora, escalonada em 6,5% nas primeiras duas faixas de renda, reduzida em 0,5 ponto percentual nas seguintes, até chegar a 4,5% na última faixa (27,5%). Junto a isto, é possível a alteração das alíquotas previdenciárias incidentes no faturamento das empresas (de 1% para 2,5%, devendo ficar em 2%, e 2% para 4,5%, devendo ficar em 4%). Outras mudanças devem recair sobre a readequação de benefícios trabalhistas, com prazos menores.

Partindo disto, tracemos dois cenários (55% e 45% de ocorrência), não abrindo muito o leque de possibilidades, embora sendo muito difícil, neste momento de stress, prever o que deve acontecer com o país até o final deste ano ou ao fim do mandato da presidente Dilma.

No segundo cenário (B), algo em torno de 45% de probabilidade, a presidente Dilma deve se arrastar até o final do mandato (ou “sangrar”, segundo o PSDB), num governo pontuado por crises, tanto na esfera econômica, como na política, não sendo positivo para o país, pela forte volatilidade dos ativos que isto deve gerar. No primeiro (A), em torno de 55%, o ministro Levy acabará se firmando como a grande “âncora nominal” deste segundo mandato, à semelhança do presidente do BACEN, Henrique Meirelles, na gestão Lula, conseguindo o tão sonhado “cavalo de pau” na economia e revertendo um pouco a onda de desconfiança existente. Cabe, no entanto, ressalvas sobre esta segunda hipótese, visto que Lula é mais pragmático, na sua sobrevivência, do que Dilma Rousseff, mais impetuosa e cheia de dogmas econômicos ultrapassados.

Nestas duas hipóteses as agências de rating devem responder de forma distinta. Na segunda (B), o país se tornaria “grau especulativo”, na primeira (A), poderia haver algum rebaixamento, mas ainda se mantendo “grau de investimento”. Neste caso, haveria uma trégua, dado o bom ajuste fiscal em curso. Lembremos que a Fitch se encontra em visita ao Brasil e acha, assim como as outras duas, Standard & Poor’s e Moody’s, que vivemos um momento de muita pressão popular. Para a Moody’s, inclusive, a possibilidade de rebaixamento está bem próxima.

Acreditamos que o ajuste fiscal acabará como o principal avanço deste governo, revertendo lentamente a desconfiança e proporcionando uma retomada do crescimento, mesmo que lenta, a partir de 2016

Em relação aos rumos da política cambial, é bem provável que o BACEN só mantenha os leilões atuais de swap cambial, com vendas diárias no futuro de US$ 100 milhões, até o dia 31/3. Nesta estratégia, já foram mais de US$ 115 bilhões, desde o início do processo, colocados em vendas futuras de contratos de swap. A partir de abril, o BACEN apenas rolaria estes contratos, intervindo mais em momentos de intensa volatilidade. Para o Bacen, não é producente manter a estratégia atual, visto que o Fed se encontra em contagem regressiva para iniciar o ciclo de aperto monetário. Já existe um consenso que este deve ocorrer no segundo semestre deste ano, sendo gradual para evitar o estouro de bolhas ou a reversão da recuperação.

Falando do cenário A mais provável (55%), acreditamos que o ajuste fiscal acabará como o principal avanço deste governo, revertendo lentamente a desconfiança e proporcionando uma retomada do crescimento, mesmo que lenta, a partir de 2016. Em 2015, o ajuste fiscal deve gerar um saldo primário em torno de 0,8% do PIB e a estabilização da dívida bruta, atualmente em 64% do PIB. Teremos stress ainda neste ano dos chamados “preços da economia”, com o câmbio pressionado, oscilando ao longo do ano na faixa de R$ 3,00 a R$ 3,50, a taxa Selic elevada a 13,5% ou 14,0% e a inflação, em torno de 8%, flutuando neste patamar ao longo deste ano, depois do realinhamento tarifário ocorrido no primeiro trimestre, mas com o câmbio como variável de incerteza. Ainda assim, continuaremos sob o fantasma do racionamento de água e energia.

Neste cenário, a atividade econômica, deve mergulhar numa recessão neste ano, recuando 1%, mas em 2016, caso o ajuste se mantenha e o racionamento não se aprofunde, é possível uma lenta recuperação. O desemprego deve aumentar neste ano, a 7% da PEA, assim como a balança comercial fechar negativa próxima a US$ 1 bilhão, mas se recuperando em 2016, assim como o saldo em conta corrente, atualmente em torno de US$ 90 bilhões, devendo recuar a US$ 86 bilhões ao fim deste ano e recuando a US$ 86 bilhões em 2016. A recuperação da economia mundial e o “efeito câmbio” devem contribuir para isto, gerando algum crescimento das exportações e recuo das importações, decorrente da economia em recessão.

Comentários finais – São variadas as possibilidades de cenário neste ano e no próximo, dado o momento atual de incerteza. No cenário B, mais extremo, a possibilidade da presidente Dilma não terminar seu mandato é considerável. Não acreditamos, no entanto, nesta hipótese, mesmo com o atual “caos político”, como retratado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em entrevista recente. Segundo ele, “a possibilidade de impeachment deriva muito mais do clima de baixa governabilidade atual do que de algum crime cometido”. Sendo assim, acreditamos no cenário A, na possibilidade do governo Dilma reverter esta onda de pessimismo e terminar seu mandato em 2018. Talvez este seja o ponto crucial, saber se a presidente termina seu mandato e como isto transcorrerá ao longo destes próximos 45 meses.

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