Na hierarquia do Itamaraty, o secretário-geral é a segunda autoridade, só abaixo do ministro de Estado. Por isto, quando para o cargo foi escolhido o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, houve discreto, mas audível sussurro em vários estamentos da administração e fora dela; aludia-se à exacerbação de seus conceitos e preconceitos.

Por conta de algum gosto pela nossa história, de suas figuras mais representativas, da circunstância de a fortuna ter me levado à Câmara e depois ao Senado e neste ter pertencido à sua Comissão de Relações Exteriores, dos naturais contatos com servidores da Casa de Rio Branco, e ainda de, por motivos vários, ter tido a oportunidade de fazer viagens ao Exterior, a maior parte das vezes a convite de Estados, vim a conhecer um pouco do nosso serviço diplomático, e a respeito do seu alto quilate tenho dito que, em geral, os brasileiros não sabem a qualidade do serviço que o Brasil tem nessa área. Outrossim, faz muito que o serviço ocupa um espaço à parte no arquipélago da administração; no entanto, o governo atual parece ter nele implantado um regime diferente, pois ao ministro foi aditado um “assessor especial do presidente”, como se os ministros não fossem assessores e conselheiros legais e naturais dele, nem fossem de sua livre escolha e confiança; como se não bastasse, o secretário-geral do Ministério teria perfil inédito. Agora, por fim, o ministro de Estado, que jamais se inscrevera em partido, ao que se sabe, filiou-se ao partido do presidente. Fico no registro do fato, que, de resto, é público.

Por que estou beirando um terreno delicado, quando não me compete apreciar as afinidades ou desafinidades ideológicas desta ou daquela autoridade? É que foi divulgado, sem reparo, que o ex-secretário-geral do Itamaraty, hoje ministro para Assuntos Estratégicos, ainda quando secretário-geral, em conferência no Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais do Itamaraty, ao defender a reforma do Conselho de Segurança e nele colocar como membros permanentes Brasil, Índia, Alemanha e Japão, o que seria perfeitamente normal, concorde-se ou não com o alvitre, teria sustentado que Alemanha e Japão teriam sido excluídos dos Conselhos da ONU nascente, em 1946, e penado por “anos de purgatório, de punição por terem desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo”. Ora, aqui a porca torce o rabo. Alguém ignora que em 1945 Alemanha e Japão, vencidos, estavam arrasados, depois de seis anos da maior e mais cruenta guerra da História, iniciada pela primeira, em setembro de 1939, agravada pelo segundo ao atacar os Estados Unidos com o bombardeio de Pearl Harbor; no fundo de sua destruição moral, militar, econômica e política, não tinham nem governo, e antes do Plano Marshall, que os tiraria da miséria, não passavam de sombras do que tinham sido e obviamente sem condições de participar de qualquer entidade tendente a refazer o mundo depois da catástrofe? Dizer que Alemanha e Japão, no fim da guerra que eles promoveram e participaram até o fim, foram punidos por terem “desafiado a liderança anglo-saxônica do mundo” seria um dislate na boca de um troca-tintas, e um embaixador do Brasil não pode ser tido como tal. Tudo isso soa falso no invento do então secretário-geral do Itamaraty e agora ministro para Assuntos Estratégicos do presidente Luiz Inácio. Para que a Alemanha e Japão não estivessem em situação em que se encontravam em 45/46, seria de mister que o nazismo et caterva tivesse obtido o imaginado império de mil anos e a civilização ocidental houvesse sucumbido. Em matéria de sectarismo não é pouco.

(Zero Hora 28/12/2009)

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