Ainda sobre o Golfo

Uma das conclusões principais sobre as causas do acidente no Golfo do México foi a negligência das autoridades americanas responsáveis pela regulação do setor de petróleo.

O que transparece é que a agência reguladora americana estava capturada pelas empresas petroleiras.

Segundo investigações feitas pela Comissão de Energia e Comércio do Congresso Americano, existia uma série de questões a respeito das decisões tomadas pela BP nos dias e horas antes da explosão da Deepwater Horizon.

Em 15 de abril, cinco dias antes da explosão, o engenheiro da BP classificou o poço de Macondo como “poço de pesadelo”.

Apesar das dificuldades do poço, parece que a BP tomou múltiplas decisões por razões econômicas que aumentaram o risco de uma falha catastrófica no poço.

Segundo a Comissão de Energia e Comércio do Congresso Americano, em diversas circunstâncias, essas decisões parecem ter violado as regras da indústria e foram tomadas apesar dos avisos do próprio pessoal da BP e de seus contratados.

Na ocasião do “blow-out”, o poço de Macondo estava significativamente atrasado em relação ao planejado. Parece que isto criou pressões para que se buscassem atalhos para acelerar o término da perfuração.

De modo especial, a Comissão está focalizando sua ação em cinco decisões cruciais adotadas pela BP:

  1. A decisão de usar um projeto de poço dotado de poucas barreiras para o fluxo de gás;

 

  1. A falha em usar uma quantidade suficiente de centralizadores para evitar um caminho preferencial durante o processo de cimentação;

 

  1. A falha ao executar um registro de aderência da cimentação para avaliar a efetividade do serviço de cimentação;

 

  1. A falha na circulação de lamas de perfuração potencialmente portadoras de gás fora do poço;

 

  1. A falha em proteger a cabeça do poço com uma luva de bloqueio antes de permitir que houvesse pressão sobre o selo vinda de baixo.

 

O aspecto comum dessas cinco decisões é que elas representam um mecanismo de compensação entre custo e segurança do poço e mostram que ocorreu ausência da agência reguladora americana responsável em evitar esse tipo de acidente.

No Brasil, a agência reguladora do petróleo e outras agências estaduais, em particular a do Rio, estão capturadas pelos partidos políticos e, no caso da ANP também, pela Petrobras.

Para o bom funcionamento de qualquer agência reguladora é fundamental que tenha independência e que seus quadros sejam preenchidos por profissionais de reconhecida capacidade técnica pelo mercado.

Caso contrário, é a sociedade que pagará a conta que virá através de acidentes, como o do Golfo, ou pela prestação de péssimos serviços aos usuários.

De nada adianta planos de contingência, nem grandes comprometimentos das petroleiras, se as agências reguladoras estiverem capturadas, seja pelas empresas, seja pelos políticos.

Fonte: Jornal “Brasil Econômico” – 29/07/10

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