Marcos Troyjo

Ajudada pela conjuntura, a China está prestes a aplicar nos EUA um golpe de mestre em termos de estratégia diplomática e comercial.

Pequim proporá a criação da Alcap (Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico). A iniciativa será formalizada nesta semana na capital chinesa durante a cúpula de chefes de Estado da Apec, bloco que congrega países banhados pelo Pacífico nas Américas, Ásia e Oceania.

Desde que anunciou que sua política externa promoveria um “pivô para o Pacífico”, Washington pouco fez sobre sua suposta prioridade diplomática na Ásia. E, agora, esse “timing” da iniciativa chinesa não poderia ser pior para Obama.

Integrar geometrias comerciais dinâmicas é absoluta prioridade

Recorrentes tensões no Oriente Médio e na complexa equação Rússia-Ucrânia consomem foco dos EUA, que deveriam lançar-se sobre a Ásia. Pior ainda, os republicanos acabam de obter importante vitória no Congresso, o que atravancará qualquer projeto mais ambicioso de Obama para a política externa.

Com a nova configuração de forças em Washington, dificilmente Obama conseguirá avanços significativos na meganegociação comercial que vem mantendo com a União Europeia. No Pacífico, a proposta de uma parceria de investimentos e comércio pela Casa Branca, que até agora excluía Pequim das conversações, também perderá força.

Países de renda mais baixa no Pacífico sentem-se cada vez mais atraídos ao campo magnético chinês. Além de sediar o futuro banco dos Brics, a China também lançou uma nova agência para investimentos na infraestrutura na Ásia, que tem tudo para desbancar tradicionais veículos nipo-americanos como o Banco de Desenvolvimento Asiático.

Desde sua fundação nos anos 60, esse banco sempre teve um japonês como seu presidente e contabiliza mais de 30% de seu capital no poder decisório de Tóquio e Washington. Reproduz, assim, o ridículo compadrio também observado no FMI e no Banco Mundial, em que a chefia executiva sempre cabe, respectivamente, a um europeu e um norte-americano.

Se Obama insistir em sua visão de integração econômica do Pacífico sem a China, arrisca mostrar-se em confronto comercial aberto com a principal potência econômica da Ásia e segunda maior do mundo.

Caso aceite embarcar num processo liderado por Pequim, a mera ideia de uma área de livre comércio com a China embrutecerá os mais duros setores protecionistas de empresas e sindicatos nos EUA, cujos interesses encontram-se bem encastelados no Capitólio.

Obama concluirá sua Presidência sem consolidar novas áreas de cooperação econômica nos dois oceanos moldadas a partir da liderança dos EUA. Estes aparecerão à opinião pública global como mais protecionistas –e a China mais aberta a abraçar o livre comércio.

Nesse jogo de xadrez, é intensa a movimentação de potências do Pacífico para inserir-se competitivamente em cadeias de valor.

Integrar geometrias comerciais dinâmicas é absoluta prioridade. As Américas desperdiçaram a oportunidade de desenhar a sua Alca. Já a Ásia, de uma forma ou outra, terá a sua Alcap.

Fonte: Folha de S.Paulo, 07/11/2014.

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