A alma do texto

Roberto DaMatta

É mais fácil saber por que odiamos do que por que amamos. É mais fácil entender a ‘luta de classes’ do que a solidariedade ou o patriotismo

No primeiro trabalho que escrevi em Harvard para um curso intitulado “Histórias da Antropologia” ministrado pelo Prof. Richard Moneygrand, recebi uma crítica estonteante: seu trabalho — disse-me o mestre — é razoável, mas não tem alma!

Na caminhada para o meu pequeno apartamento de Shaler Lane, eu remoí a observação do meu tutor. Qual o sentido do “sem alma”? Era o meu inglês ou a minha gigantesca ignorância?

Corria um outubro escuro, impressionante pela velocidade com que os dias viravam noite. Tal atmosfera, estranha e desconhecida para um niteroiense que vivia na plenitude de intermináveis verões, juntava-se o enigma contido na tal ausência de alma do meu primeiro texto escolar harvardiano.

Minha memória não reteve o que escrevi, mas lembro-me bem desse primeiro semestre nos Estados Unidos porque, no seu gelado novembro de 1963, testemunhei o assassinato do presidente J. F. Kennedy. Um evento que me escancarou a quota de ressentimento e violência engavetada nas contidas rotinas americanas. Foi somente depois do meu primeiro “Natal branco” em Cambridge que compreendi a admoestação do meu mestre.

Um texto sem alma era uma escrita sem carne ou sangue. Havia precisão e fatos mas não havia seiva, emoção, espírito. Moneygrand era — e ainda é — obcecado por essas apreciações. Gostava de citar Hemingway, Thomas Mann, Machado de Assis, Malinowski, Evans-Pritchard e Meyer Fortes como autores de textos com alma.

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Seria possível falar de governos sem alma? Ou em políticos desalmados? Sim, nós temos, em paralelo às bananas, muitos administradores, magistrados e parlamentares corruptos, mas seriam eles desalmados quando sempre “arrumam” suas famílias e tudo é feito com os amigos?

Dick Moneygrand afirma numa mensagem recente que sim. A ausência da alma é a inconsciência da consciência. Tal falta está ligada a ausência de reflexão sobre os limites dos cargos, funções ou papéis. O equilíbrio entre o indivíduo e o grupo, o papel e o enredo é algo essencial, teoriza Moneygrand.

O Brasil, arremata no seu estilo ianque-calvinista, sempre exagera na indecisão. Hoje, vocês precisam de tribunais para tudo. Eis um sintoma de que os limites entre papéis têm sido espatifados. O vosso inimigo é interno, o nosso tem sido externo.

Perdemos nossas almas? Pergunto aflito. Talvez… E o pior é que nem o diabo as anseia, pois o lado brasileiro do inferno é, como reza a piada, uma bagunça. Não tem nem o fogo que castiga…

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Retruquei com um golpe baixo: e o Trump? Teria ele, além do carnavalesco topete, alguma coisa semelhante a uma alma?

Ele está tentando descobrir sua alma bombardeando a Síria, responde prontamente Moneygrand.

Um inimigo externo assegura a união interna. Você se lembra das nossas aulas de organização social? Entre os Nuer de um velho Sudão, a lógica é a mesma. Irmão mais velho contra o mais novo (como nos contos de fada), mas ambos contra os primos. Agora, se a família extensa é ameaçada por outra unidade da mesma magnitude social, irmãos e primos se unem contra a outra casa. Contudo, se um membro de uma outra linhagem ataca um dos nossos primos distantes, nossa linhagem se une contra as outras.

As escaladas, os conflitos e os pecados são segmentados. A guerra externa engendra uma poderosa alma interior. Conflito e solidariedade são as faces de uma mesma moeda. Por isso se tem escrito muito mais sobre o conflito do que sobre a paz. Exceto Durkheim e Mauss, nenhum sociólogo falou de solidariedade ou da dádiva como o centro da sociabilidade. É muito mais fácil saber por que odiamos do que descobrir por que amamos. É mais claro entender a “luta de classes” do que a solidariedade ou o patriotismo. Falar do todo ou de Deus é muito mais complicado do que discorrer sobre o diabo.

Até mesmo o bem e o mal são relativos, tal como o masculino e o feminino, a juventude e velhice, o humano e o natural. Com uma mulher você pode se sentir mais homem do que com outra. Seria essa a raiz do amor? Há pessoas que fazem com que a gente se sinta burro ou errado; outras, porém nos colocam nas nuvens.

Incomoda muito descobrir — como bem sabia um mestre do olhar exilado como Machado de Assis — que um mundo dominado pelo pecado mais cedo ou mais tarde iria praticar a virtude; tal como um universo no qual a virtude é o ideal tem como franja o pecado.

Moneygrand termina notando que Trump tem sido acusado de incompetência porque ainda não preencheu todos os 553 cargos-chaves — aqueles que requerem confirmação do Senado. Vamos comparar com o Brasil? Provoca meu antigo professor e amigo querido.

Fonte: “O Globo”, 12/04/2017

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