A ampliação do acesso aos livros e os ecos de uma Bienal

No último domingo (10) encerrou-se a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, com recorde de público, sobretudo adolescentes que foram prestigiar celebridades da literatura popular para essa faixa etária. Havia menos editoras expondo, sinal da crise, e houve uma polêmica em torno da ida de crianças e jovens de escolas públicas ao evento, dadas as dificuldades fiscais e divergências sobre valores cobrados pelo transporte, mas, afinal, um grupo de alunos também pôde ir.

Infelizmente, apesar do sucesso da iniciativa, o Brasil tem ainda um número reduzido de leitores. Segundo a publicação “Retratos da Leitura”, o brasileiro lê, em média, cinco livros por ano, bem menos do que países de PIB equivalente ao nosso. Além disso, apesar de avanços em número de livrarias, a crise não foi generosa com elas, e escolas trabalham pouco a leitura literária.

Por outro lado, com a proliferação de títulos mais voltados ao público jovem e de livros eletrônicos, uma forte contestação surgiu entre leitores mais sofisticados, desaprovando o gosto literário dos jovens e a utilização de novas mídias para a leitura. Com certo desprezo por outros suportes de texto, afirma-se que se perde o acesso ao cheiro do livro, ao prazer estético do manuseio da obra.

Conquanto concorde com os prazeres eventualmente perdidos, lembro que os novos formatos do livro permitem maior acesso à leitura por parte de públicos anteriormente excluídos. O uso dos e-books tem permitido que leitores possam aumentar o tamanho das letras, acessar rapidamente produções que não se encontram em livrarias (muitas vezes mesmo inexistentes em determinadas cidades) e, gratuitamente, a obras que caíram em domínio público.

O mesmo se pode falar dos audiolivros e dos mecanismos de tradução em braile. Os meios digitais proporcionaram acesso à leitura a pessoas com deficiência e, recentemente, o Sindicato Nacional de Editores de Livros assinou um termo de ajustamento de conduta com o Ministério Público Federal se comprometendo a progressivamente se adequar à tecnologia de conversão de textos de livros em voz.

Naturalmente, o uso de livros eletrônicos, audiolivros e novos suportes para a leitura ainda estão em sua infância no Brasil. Os livros digitais são 6,89% do mercado no Brasil, segundo a edição de 2017 do “Global eBook”, publicação especializada na área, e estão em processo de crescimento.

Longe de lamentar com arrogância a ampliação do acesso à leitura, deveríamos celebrar o fato de que mais obras estão hoje disponíveis para formar mais leitores. Cabe às escolas fazer o resto: preparar jovens para ler também obras mais elaboradas, que demandam pensamento mais complexo.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 15/09/2017

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