Sobe no continente europeu uma fumaça de medo que se alastra pelos mais variados países e segmentos sociais. Foi o que senti em curta viagem da qual acabo de retornar.

A Grécia, onde a situação está próxima de fugir do controle, teme perder sua melhor conquista recente, que foi a admissão na União Europeia (talvez somente devido ao seu título histórico de berço da civilização ocidental), o que pode bem ocorrer se ficar claro que as ajudas financeiras atuais não saneiam uma economia muito distorcida cujos dirigentes não têm estômago para ir ao fundo dos problemas. Portugal, Irlanda e Espanha temem que o preço dos ajustes econômicos seja tão alto que os obrigue a retroceder anos ou até décadas e torne o retorno ao crescimento uma quimera. Os grandes — a Alemanha em primeiro lugar — temem que não haja condições políticas para seguir apoiando os mais vulneráveis para segurar o euro. Seus líderes sabem que o fim da moeda única seria uma catástrofe, em primeiro lugar para a própria Alemanha. Enfim, existe o medo de que o Estado do bem estar social esteja seriamente ferido, sem que seja possível saber o que virá depois. Estamos falando deste welfare state que parecia a forma mais bem-acabada de governo e a fonte de equilíbrio social, que havia gerado a social-democracia no início do século XX e relegado o marxismo às esferas acadêmicas depois do naufrágio soviético.

A Europa do pós-guerra foi construída como uma catedral, ao longo de sessenta anos. Começou pela Comunidade do Carvão e do Aço de 1951, que visava a integrar essas indústrias, isto é, a neutralizar os riscos de uma nova corrida armamentista. Tornou-se Comunidade Econômica Europeia em 1958, em Roma, com seis países, bastante homogêneos economicamente, e evoluiu com Jacques Delors até resultar na União Europeia, pelo Tratado de Maastricht de 1992, e no euro, em 2002. Hoje, inclui vinte e sete países. Esta breve cronologia mostra como a Europa progrediu resolutamente, tornando-se o que parecia ser a mais sólida e bem construída integração de Estados e nações da história moderna. Hoje, a solidez da construção é questionável. Os governantes e os que formam opinião não têm mais certezas. Tateiam à procura de equilíbrios cada vez mais complicados. As perguntas incessantes são angustiantes. E se a Grécia falir e deixar o euro, entrando em convulsão? E se o próprio euro se inviabilizar? E se os alemães se fartarem de pagar as contas dos outros, menos disciplinados e sobretudo menos produtivos? E assim por diante.

A olho nu, a paisagem europeia é o resultado consolidado e maravilhoso de séculos de trabalho e cultura: ordenada, próspera e bela, com uma infraestrutura excelente. Mas a insegurança é generalizada. A imigração clandestina cria dramas. Em muitos países com uma tradição de Estado forte, numerosos são os que sabem que vão perder parte apreciável de seus confortáveis benefícios de salários, vantagens e garantias de estabilidade e aposentadoria e que estão mesmo em risco concreto os seus empregos, situação antes impensável. Em Portugal, depois da capitulação do governo socialista, o eleitorado elegeu como primeiro-ministro, por larga margem, o candidato Passos Coelho, que preconizou aberta e francamente na campanha eleitoral um programa duríssimo de ajustes econômicos. Os portugueses aprovaram tais sacrifícios apenas porque se convenceram que esta é a única esperança.

Quais podem ser as consequências desta crise sistêmica que vive a Europa? Decerto não haverá uma mudança profunda de regimes, pois nem no terreno da utopia desenham-se modelos alternativos ao capitalismo e à democracia. Esta talvez seja a única coisa que se pode afirmar sem risco. Alguns temem que haja uma escalada de confrontos de rua. Outros pensam que os que protestam não poderão montar mais do que escaramuças, incapazes de provocar mudanças de caráter revolucionário. A opinião mais difundida que encontrei é que, com a perda de poder aquisitivo e o aumento da pobreza, haverá um forte incremento da criminalidade nos países submetidos a severos programas de ajuste. Mas tudo isso é uma navegação de risco, na escuridão, que não garante nenhum prognóstico.

Porém, mesmo com tantas avaliações sombrias, a Europa não vai perder suas conquistas fundamentais. Em sua longa história, já ressurgiu de tragédias incomparavelmente mais agudas. Sua base é muito sólida e assegura a permanência de suas instituições e de seus regimes democráticos. Mas há uma grave acuna, já que não está ainda definido como a União Europeia será governada do ponto de vista político e militar neste século XXI, que se iniciou sob o signo de tanta instabilidade econômica. A Europa vive sob uma ameaça real de desabamento da catedral que ela foi capaz de construir depois da hecatombe da Segunda Guerra Mundial.

Fonte: O Globo, 11/07/2011

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