Ano novo, velhos desejos

nelson motta

Não é preciso ser Paulo Coelho para acreditar no poder das palavras e na força dos desejos. Nem Raul Seixas para cantar que “sonho que se sonha junto é realidade”. Que meus desejos expressem os de muitos leitores, ou, ao menos, de alguns deles. E que as nossas palavras tenham o poder de realizá-los, pelo menos os mais óbvios.

Que o mensalão do PT e aliados, o do PSDB mineiro e o do DEM de Brasília sejam julgados e condenados. Assim como os juízes ladrões e os administradores e parlamentares corruptos.

Que sejam proibidas contribuições de pessoas jurídicas às campanhas eleitorais, como propõe o ministro Dias Toffoli, do STF. Empresas não votam, são os cidadãos e os partidos, que já têm o horário eleitoral e os fundos partidários, que devem financiar as campanhas de seus candidatos. Com limite por CPF. Uma ruptura da promiscuidade entre governos e empresas, raiz da corrupção e do atraso.

Que seja abolido o voto obrigatório. Eleitores que só votam para não pagar multa não farão falta: são os que fazem as piores escolhas. Somos um dos últimos países do mundo com essa herança das ditaduras para “legitimá-las” nas urnas.

Que a Lei da Ficha Limpa valha para preenchimento de cargos em todos os níveis das administrações federal, estadual e municipal.

Que o Estado desista de ser babá do cidadão, de tentar proteger-nos de nós mesmos. E respeite mais nossa privacidade e nossas escolhas.

Que as ideias do professor Fernando Henrique Cardoso sobre descriminalização da maconha sejam discutidas.

Que Sarney se aposente com suas três aposentadorias. E, roído de culpa, em busca de redenção, doe todos os seus bens aos pobres do Maranhão. Mas aí também já é sonhar demais.

Que parem de telefonar para minha casa oferecendo coisas que não pedi.

Que a nova música de Belém do Pará faça o sucesso que merece.

Um novo disco de João Gilberto. Um show de Jorge Drexler.

Uma nova temporada de “Força Tarefa” na televisão. E, sem querer abusar, um novo romance de seu roteirista Marçal Aquino. Um novo livro de Reinaldo Morais, se possível, “Pornopopeia 2, qualquer coisa”.

Desejar menos. Aceitar mais.

Fonte: O Globo, 06/01/2012

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