Anos excepcionais

O Brasil está passando por uma fase, especialmente nos últimos anos, extremamente favorável no que se refere às condições para a expansão da economia. A excepcionalidade resulta do fato de que um conjunto de variáveis-chave para o bom desempenho do país tem apresentado uma trajetória que dificilmente voltará a se repetir, nessa intensidade, no futuro. Os gráficos 1 a 4 mostram a extensão do fenômeno. Limitações de espaço não permitem abordar nuances importantes observadas no interior do período, mas a comparação de 2002 com 2012 não deixa dúvidas acerca dos benefícios desse contexto.

O gráfico 1 mostra o índice de preço das exportações do Brasil, em dólares. Esse índice, que entre as médias anuais de 1997 e 2002 sofreu uma queda acumulada de 23%, começou a melhorar em 2003 e entre 2002 e 2011 apresentou uma impressionante escalada acumulada de 173%. Entre 2002 e 2011, as exportações brasileiras em dólares aumentaram 324%, mas o “quantum” elevou-se apenas 61%. Isso permitiu que o “quantum” de importações nos mesmos nove anos aumentasse 148% – quase 2,5 vezes a taxa das exportações – financiando um “boom” da absorção doméstica, sem gerar um colapso do balanço de pagamentos.

A má notícia é que esse mundo tende a acabar. De agora em diante, tudo será mais difícil. O que acontecerá?

O gráfico 2 exibe as taxas de juros de curto prazo dos EUA. Tais taxas, que na média de 1991/2000 foram de 5% e ainda estavam nesse nível em meados da década passada, têm estado desde 2008 próximas de zero, um patamar historicamente ínfimo. Tais circunstâncias propiciaram que o “apetite ao risco” pelo investimento em mercados emergentes alcançasse recentemente níveis que “nunca antes na história deste mundo” tinham sido vistos, com óbvios benefícios para o país.

Já o gráfico 3 expõe a trajetória da taxa de câmbio US$/R$. Esta, que antes da desvalorização de 1999 encontrava-se em R$ 1,20 e que atingiu quase R$ 4 no pico de incerteza de 2002, foi no final daquele ano de R$ 3,53 e, desde então, andou ladeira abaixo durante praticamente nove anos, com uma breve interrupção – rapidamente revertida – na crise de 2008. Isso é parte da “sensação de bem-estar” percebida pela sociedade.

Finalmente, o gráfico 4 apresenta o índice de número de desempregados, tendo como base 2003=100. Naquele ano, a média anual do desemprego aberto do IBGE foi de 12%, caindo para 6% em 2011. Nesses oito anos, o número de pessoas desempregadas caiu 55%, dinâmica excelente para as condições de vida da população, mas que não pode se manter indefinidamente, já que é difícil imaginar que o desemprego ceda abaixo de 5%.

O conjunto desses dados revela a existência de condições de contexto, nos últimos tempos, simplesmente excepcionais. Em primeiro lugar, preços exuberantes das exportações. Em segundo, juros internacionais no piso histórico. Em terceiro, câmbio apreciado. E quarto, existência (ainda) de disponibilidade de mão de obra, permitindo ao país crescer ocupando gente, sem ter que se preocupar com a elevação da produtividade.

A má notícia é que esse mundo tende a acabar. O preço das exportações não poderá ficar nas nuvens indefinidamente; na segunda metade da década, os juros internacionais deverão aumentar; a taxa de câmbio, no médio prazo, dificilmente voltará a cair como no passado; e o desemprego está perto do piso. De agora em diante, tudo será mais difícil. O que acontecerá? Meu palpite é que depois de 2013 teremos mais inflação e menos crescimento que no governo Lula II. A conferir.

 

Fonte: Valor Econômico, 11/04/2012

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