Com certeza você já deve ter ouvido muitas vezes que “aqui no Brasil antissemitismo não tem tradição histórica” ou que “no Brasil há tolerância religiosa”. Isto, no entanto, não é propriamente a verdade, e o antissemitismo de certos intelectuais brasileiros vem de longa data, para não falar de políticas oficiais antissemitas, como no governo de Getúlio Vargas, o que já foi longa e meticulosamente analisado por Maria Luiza Tucci Carneiro, no seu consagrado “O antissemitismo na Era Vargas”.
Muito embora tenhamos uma lei com penas severas para o preconceito de religião, raça ou cor, ainda se podem encontrar, via internet ou sebos, muitos livros que propagam idéias e mitos sobre os judeus e sua suposta dominação do mundo, clichês que jamais cessaram de existir e que hoje estão presentes com muita força no mundo islâmico, através dos sermões dos mulás nas mesquitas, onde Israel é tido como o pequeno Satã que junto com os Estados Unidos procura dominar o planeta.
Certo “erudito” brasileiro, nascido no final do século XIX, tem uma prolífica obra a respeito do que considera ser a influência judaica na História do Brasil. Estou me referindo a Gustavo Barroso, membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia de História de Portugal, da Royal Society of London, do Instituto Coimbra de Portugal, da Sociedade de História Argentina e de mais uma porção de instituições do mesmo quilate, além de ter sido agraciado com muitas comendas, inclusive a Legião de Honra da França apenas para mencionar uma, tendo sido um dos maiores arautos de idéias nazistas no Brasil em seu tempo, além de partidário do integralismo, versão tupiniquim do nazi-fascismo.
Este autor que se pretende Historiador, e que vez por outra é citado por outros escritores, tem afirmações como “toda a História do Brasil é assim: uma aparência – o idealismo construtor do português, do mameluco e do brasileiro, dos cristãos; uma realidade – o utilitarismo oculto do judeu, explorando as obras do idealismo alheio”, ou ainda como “combate-se o judeu, não se usa do judeu: usá-lo equivale a cair-lhe nas unhas mais hoje, mais amanhã”.
Ao falar sobre a fuga dos judeus da Inquisição, diz que a mistura do sangue judaico ao sangue cristão foi a causa da “falta de fixidez no caráter, inclinação a não levar nada a sério, capacidade de deformar todas as ideias, indisciplina inata e prazer do despistamento” que seriam, segundo ele, defeitos da maioria dos brasileiros.
Todos os males do Brasil são debitados aos judeus, e chega a dizer que o judeu “tem sido o fermento desagregador dos impérios e das civilizações”…
O delírio de Barroso, na sua “História Secreta do Brasil”, infelizmente não está só na literatura nacional, pois homens como Pedro Calmon, outro historiador de peso, também se referiu pejorativamente aos judeus: “por detrás dos marinheiros flamengos, estava o judeu de Amsterdam e de Haia” (in História da Civilização Brasileira), ao analisar a invasão do nordeste pelos holandeses.
O pai da sociologia brasileira, Gilberto Freyre, no seu clássico “Casa Grande & Senzala”, de 1933, época em que as ideias racistas tomavam conta de boa parte do mundo, “explicou” a usura dos judeus apelando para os mais grotescos estereótipos do nazismo alemão: “técnicos da usura, tais se tornaram os judeus em quase toda parte por um processo de especialização quase biológica que lhes parece ter aguçado o perfil no de ave de rapina, a mímica em constantes gestos de aquisição e de posse, as mãos em garras incapazes de semear e de criar. Capazes só de amealhar”! Ou seja, nós judeus temos perfis de gavião, de águia, e temos mãos em garras…(confesso que olhei no espelho e não vi nada disto).
Chocado? Não sabia que o tão citado e elogiado Freyre colocou tal “análise” na sua obra prima? Pois saiba que não parou aí. Cita autores como Chamberlain (não o ministro inglês de triste memória pela entrega da Tchecoslováquia a Hitler), para atribuir aos judeus a culpa pela escravidão dos negros no Brasil.
Vale lembrar que se Gustavo Barroso foi praticamente esquecido, menos pelos nazistas, é claro, Gilberto Freyre continua até hoje fazendo escola, sendo referência obrigatória para qualquer estudo sociológico do Brasil. É influência de peso.
Mas, por que escrevo a respeito disso, citando autores cujas obras são quase de uso exclusivo dos especialistas, você pode estar se perguntando.
Porque num momento em que a política exterior do Brasil volta-se claramente para países que não aceitam a existência de Israel como Estado, que pregam a negação do Holocausto, que disseminam ideias iguais às de Barroso, de Freyre e outros, que dizem que vão exterminar o povo judeu, creio que todos   devem ficar atentos para a real possibilidade de que poderemos um dia acordar com uma campanha antissemita para, por exemplo, se jogar a culpa por um fracasso econômico nos judeus, como já se colocou a culpa pela crise financeira nos banqueiros brancos de olhos azuis…Já se viu esse filme antes…
Aqui perto, um presidente de país que faz fronteira com o nosso, abriga inimigos de Israel e dos judeus e já fez declarações a respeito dos judeus que lhe custariam a liberdade se tivessem sido feitas aqui por qualquer cidadão.
E para ficar no Brasil, lembro que pouco após o confronto israelense com o Hamas um assessor próximo ao presidente Lula, Marco Aurélio Garcia, declarou à revista Piauí (edição de março de 2009) que a “invasão israelense da Faixa de Gaza é terrorismo de estado” ou “crime de guerra”, acrescentando que “os judeus têm que perder o hábito de achar que qualquer crítica é uma manifestação contra a existência de Israel”, e acusou o governo de Israel de apoiar o apartheid da África do Sul e as ditaduras de Somoza e de Salazar. “Não venham agora querer bancar os bacanas para o meu lado”, concluiu. O presidente Lula, que já viajou pelo mundo quase todo, jamais foi a Israel. Quem o impede? Que razões fazem com que ignore este Estado que está na vanguarda de muitos setores e que pode colaborar com o desenvolvimento do Brasil? O que a Líbia tem a mais para oferecer? E o Gabão? E o Sudão?
E qual a razão estratégica, econômica ou humanitária que levou o Brasil, através do Itamaraty, a firmar acordo secreto com o arquiinimigo de Israel, o Irã, burlando as sanções internacionais, como divulgou a revista Isto É ainda outro dia?
Num instante em que se culpa a política de Israel pela instabilidade do Oriente Médio, o que ficou muito claro nos discursos do novo presidente americano, é extremamente importante que os judeus tenham em mente que pode acontecer um novo massacre. Atentados e vandalismo contra instituições judaicas são diárias na Europa hoje infestada de propaganda antissemita.
Não há razão alguma para se achar que no Brasil estamos imunes de coisas parecidas. Tolo é quem assim pensa. A lição do que ocorreu no velho mundo na época do nazismo não pode ser esquecida.

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3 comments

  1. Carlos Lins

    “Yo no lo creo en fantasma; pero que los hay, hay!”
    Eu creio que o antissemitismo não está restrito aos intelectuais e a Era Vargas. Aqui, no interior do Est. de São Paulo eu fui vítima do antissemitismo por uma inquilina de minha mãe, sem ser judeu.
    Relato sinopse: Fui até a casa que acabara de ser alugada e ví a mulher batendo numa criança (agredindo) – Acreditando que ela fosse a mãe, chamei sua atenção para o fato, dizendo: “Oh, minha senhora. Em filho se dá uma palmada na bunda… (etc)” – Ela retrucou furiosa: “Ah! judeu nojento, miserável… etc” – Ela acreditava que eu fosse judeu. Eu havia deixado na casa 3 revistas “O Hebreu” e ela tinha ouvido eu explicar a dois missionários (TJ) que Israel é o povo de Deus…

    Por outro lado, é comum quando se está em jogo questão de dinheiro, a pessoa se referir ao “fulano” como: “Aquele cara é judeu!” de forma pejorativa. Portanto não acho que somente alguns intelectuais são antissemistas. O povo simples repete frases antissemitas, embora alguns nem saibam que cometem injustiça com nossos amigos judeus.

  2. Carlos Lins

    “Pesquisa Petista no Millenium?” – Não Acredito!

    O ilustre comunicador Ricardo Boechat (TV BAND) baseado em pesquisa deste mesmo conceituado Instituto, informa na Revista Veja que: “a população da região Sudeste é mais favorável ao uso da censura contra os meios de comunicação. Nada menos que 24% dos entrevistados na região disseram que apoiariam restrições aos orgão de imprensa para impedir divulgação de críticas ao governo Lula. Acredite quem puder.” (sic).

    -Resp- Parece dificil acreditar, mas pode ser que 76% dos entrevistados eram de outros partidos e não do PT. (pt.=ponto)

  3. Revolução Quilombolivariana

    Revolução Quilombolivariana
    Viva Zumbi! Viva Che!Viva Hugo Chávez! Feliz 2010!
    Conscientização!Justiça !Prosperidade! Solidariedade!
    Fraternidade!Amor! Paz! Socialismo Quilombolivariano!
    Ao Nosso Povo! Viva Brasil! Venceremos Feliz 2010!
    .
    Manifesto em solidariedade, liberdade e desenvolvimento dos povos afro-ameríndio latinos, no dia 01 de maio dia do trabalhador foi lançado o manifesto da Revolução Quilombolivariana fruto de inúmeras discussões que questionavam a situação dos negros, índios da América Latina, que apesar de estarmos no 3º milênio em pleno avanço tecnológico, o nosso coletivo se encontra a margem e marginalizados de todos de todos os benefícios da sociedade capitalista euro-americano, que em pese que esse grupo de países a pirâmide do topo da sociedade mundial e que ditam o que e certo e o que é errado, determinando as linhas de comportamento dos povos comandando pelo imperialismo norte-americano, que decide quem é do bem e quem do mal, quem é aliado e quem é inimigo, sendo que essas diretrizes da colonização do 3º Mundo, Ásia, África e em nosso caso América Latina, tendo como exemplo o nosso Brasil, que alias é uma força de expressão, pois quem nos domina é a elite associada à elite mundial, é de conhecimento que no Brasil que hoje nos temos mais de 30 bilionários, sendo que a alguns destes dessas fortunas foram formadas como um passe de mágica em menos de trinta anos, e até casos de em menos de 10 anos, sendo que algumas dessas fortunas vieram do tempo da escravidão, e outras pessoas que fugidas do nazismo que vieram para cá sem nada, e hoje são donos deste país, ocupando posições estratégicas na sociedade civil e pública, tomando para si todos os canais de comunicação uma das mais perversas mediáticas do Mundo. A exclusão dos negros e a usurpação das terras indígenas criaram-se mais e 100 milhões de brasileiros sendo este afro-ameríndio descendente vivendo num patamar de escravidão, vivendo no desemprego e no subemprego com um dos piores salários mínimos do Mundo, e milhões vivendo abaixo da linha de pobreza, sendo as maiores vitimas da violência social, o sucateamento da saúde publica e o péssimo sistema de ensino, onde milhões de alunos tem dificuldades de uma simples soma ou leitura, dando argumentos demagógicos de sustentação a vários políticos que o problema do Brasil e a educação, sendo que na realidade o problema do Brasil são as péssimas condições de vida das dezenas de milhões dos excluídos e alienados pelo sistema capitalista oligárquico que faz da elite do Brasil tão poderosas quantos as do 1º Mundo. É inadmissível o salário dos professores, dos assistentes de saúde, até mesmo da policia e os trabalhadores de uma forma geral, vemos o surrealismo de dezenas de salários pagos pelos sistemas de televisão Globo, SBT e outros aos seus artistas, jornalistas, apresentadores e diretores e etc.
    Manifesto da Revolução Quilombolivariana vem ocupar os nossos direitos e anseios com os movimentos negros afro-ameríndios e simpatizantes para a grande tomada da conscientização que este país e os países irmãos não podem mais viver no inferno, sustentando o paraíso da elite dominante este manifesto Quilombolivariano é a unificação e redenção dos ideais do grande líder Zumbi do Quilombo dos Palmares a 1º Republica feita por negros e índios iguais, sentimento este do grande líder libertador e construídor Simon Bolívar que em sua luta de liberdade e justiça das Américas se tornou um mártir vivo dentro desses ideais e princípios vamos lutar pelos nossos direitos e resgatar as histórias dos nossos heróis mártires como Che Guevara, o Gigante Oswaldão líder da Guerrilha do Araguaia. São dezenas de histórias que o Imperialismo e Ditadura esconderam. Há mais de 160 anos houve o Massacre de Porongos os lanceiros negros da Farroupilha o que aconteceu com as mulheres da praça de 1º de maio? O que aconteceu com diversos povos indígenas da nossa América Latina, o que aconteceu com tantos homens e mulheres que foram martirizados, por desejarem liberdade e justiça? Existem muitas barreiras uma ocultas e outras declaradamente que nos excluem dos conhecimentos gerais infelizmente o negro brasileiro não conhece a riqueza cultural social de um irmão Colombiano, Uruguaio, Argentina, Boliviana, Peruana, Venezuelano, Argentino, Porto-Riquenho ou Cubano. Há uma presença física e espiritual em nossa história os mesmos que nos cerceiam de nossos valores são os mesmos que atacam os estadistas Hugo Chávez e Evo Morales Ayma, não admitem que esses lideres de origem nativa e afro-descendente busquem e tomem a autonomia para seus iguais, são esses mesmos que no discriminam e que nos oprime de nossa liberdade de nossas expressões que não seculares, e sim milenares. Neste 1º de maio de diversas capitais e centenas de cidades e milhares de pessoas em sua maioria jovem afro-ameríndio descendente e simpatizante leram o manifesto Revolução
    Quilombolivariana e bradaram Vivas! a Simon Bolívar Viva! Zumbi!Tupac Amaru!Benkos BiojoS!Negra Hipólita! Sepé Tiaraju Alicutan!Sabino! Elesbão!Luis Gama,Lima Barreto,Cosme Bento! José Leonardo Chirinos !Antônio Ruiz,El Falucho! João Grande e Pajeú ,João Candido! Almirante Negro!Patrice Lumumba!Viva Che! Viva Martin Luther King!Malcolm X!Viva Oswaldão Viva! Mandela Viva!Luiz I.Lula da Silva, Viva! Chávez, Vivas! a Evo Ayma!Rafael Correa! Fernando Lugo!José Mujica(El Pepe)! Viva! a União dos Povos Latinos afro-ameríndios,! 1º de maio,
    Viva! Os Trabalhadores do Brasil e de todos os povos irmanados.
    Movimento Revolucionário Socialista (Seja um,uma) QUILOMBOLIVARIANO
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