Silvânia é uma cidade do interior de Goiás. Fica entre Goiânia e Brasília. Tem mais de duzentos anos de existência, menos de vinte mil habitantes e, a exemplo de quase todas as outras cidades brasileiras, é pessimamente administrada. Como não poderia deixar de ser, a população não tem muitos meios para se manifestar. Há em Silvânia uma rádio AM, a Rádio Rio Vermelho, de propriedade da Igreja Católica, e um jornal, A Voz, que sobrevive a duras penas. O diretor e apresentador do principal programa da rádio, Célio Silva, é uma das poucas pessoas com uma postura assertiva frente aos problemas da cidade, que, ademais, não possui salas de cinema ou livrarias.

Além de apresentar o Giro da Notícia, programa de vasta repercussão na cidade e arredores, Célio Silva mantém um blog (http://blog.radioriovermelho.com.br/) que contabiliza quase trezentos mil acessos desde a sua criação, em fins de 2006. Em um universo demograficamente tão restrito, o número de acessos impressiona. Os posts do blog e, sobretudo, alguns comentários publicados ali por parte dos leitores já criaram algumas polêmicas locais interessantes. O blog diz muito da postura do cidadão silvaniense em relação às autoridades locais.

Dos comentários mais ácidos publicados ali, a maioria é assinada sob pseudônimos. Há algum tempo, na legislatura anterior, alguns vereadores da cidade se sentiram atingidos pelos comentários feitos sob pseudônimo por um leitor. Pressionaram o responsável pelo blog, exigindo que ele “denunciasse” o responsável ou, pelo menos, permitisse que a polícia vasculhasse os endereços de IP e identificasse o computador do qual partiram os comentários. Antes que a coisa chegasse a tanto, o comentador se identificou junto ao blogueiro, pediu desculpas e a situação foi brasileiramente contornada.

Desde então, os comentários publicados no blog são mais genéricos. Fala-se mal da administração, mas nomes não são citados. Não há críticas diretas a nenhum vereador, por exemplo, mas à legislatura como um todo. Mesmo assim, a maioria dos comentadores mais irritados continua usando pseudônimos.

Parafraseando Oswald de Andrade, Silvânia é uma republiqueta cheia de árvores e de gente dizendo adeus. Em tese, teria legado à história alguns políticos e intelectuais importantes (não consigo me lembrar de nenhum agora), formados por um de seus três colégios católicos. A cidade é chamada pelos mais entusiasmados de “Atenas de Goiás” (os engraçadinhos costumam dizer “Apenas de Goiás”). Curioso que Silvânia não seja a única cidade do interior de Goiás conhecida por essa alcunha. Talvez seja uma espécie de vício regional remeter à Grécia Antiga, ainda que Aristóteles e Homero não estejam entre as leituras prediletas dos cidadãos locais. Estes, quando muito, preferem Augusto Cury.

Enquanto microcosmo da vida política, social e cultural brasileira, Silvânia não deixa a desejar. Os cidadãos são, em geral, desinteressados da vida política local, regional ou nacional, exceto quando se trata de tapar buracos na avenida principal ou do preço da soja. A classe política é oportunista, inculta e descrente da democracia (eleições? Uma coisa chata que acontece a cada quatro anos). Há exceções, claro, mas elas só servem para reiterar que Silvânia faz parte do Brasil. E há quem suspeite de que o Brasil também faça parte de Silvânia, no que adentramos uma espécie estranhíssima de labirinto borgeano.

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