Apertem os cintos, Trump assumiu

Títulos de dois influentes livros sobre economia global nos últimos 40 anos —”A Era da Incerteza”, de J.K. Galbraith, e “A Era da Turbulência”, de Alan Greenspan— adaptam-se perfeitamente à etapa que agora se inicia.

A julgar pelo conteúdo e estilo de sua campanha e o convulsionado período como presidente eleito, o que Trump oferece ao mundo nos primeiros movimentos de seu governo é um estoque de incerteza e turbulência.

“Fazer a América grande de novo”, mote da candidatura, significará romper com padrão de política externa estabelecido quando, ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os EUA alçaram-se à condição de superpotência líder —a “Pax Americana”.

Para tal inflexão, o inquilino da Casa Branca terá de transformar em ações concretas sua denúncia do quadro internacional do comércio e a própria relação que o presidente dos EUA mantém com a elite global.

O comércio internacional, em sua atual configuração, é para a retórica trumpista o que a URSS foi para o marketing político de Reagan —um “Império do Mal”.

A deslealdade de parceiros —e a incompetência dos negociadores americanos desde o fim da Guerra Fria— teriam permitido um “mundo plano” apenas àqueles que querem exportar para os EUA.

O México se valeria do NAFTA para “roubar” empregos americanos. A China, com seu capitalismo de Estado, manipularia câmbio e custos visando ao declínio do setor manufatureiro nos EUA.

Para Trump, supostas vantagens geopolíticas de uma maior interdependência econômica não estão mais surtindo efeitos positivos para os EUA.

Na mesma linha, a elite global —burocratas encastelados em instituições “desatualizadas” como FMI, ONU, Otan e OMC— perdeu a capacidade de corrigir desequilíbrios da ordem mundial.

Incerteza e turbulência resultam portanto numa equação com dois eventuais desfechos.

O primeiro: a América se fecha para o mundo —isolamento comercial, populismo nacionalista, diminuição de presença geoestratégica, entretenimento para uma opinião pública interna conflagrada e imbecilizada.

O segundo: os EUA, ainda que de modo tumultuado, ajudam a reinventar a globalização.

Se o caminho adiante é o do isolacionismo, quatro anos de Trump podem ser mascarados por uma economia herdada de Obama que, com baixo desemprego e crescimento razoável para um país da OCDE, não vai tão mal.

E, no curto prazo, os EUA podem ainda beneficiar-se da combinação (matematicamente insustentável) de desoneração tributária e expansão dos investimentos governamentais em infraestrutura —coração da “Trumponomics”.

Mas o desmantelamento das redes globais de valor será, em horizonte não distante, devastador para os EUA, que têm mais multinacionais que qualquer outro país.
A “vingança da globalização” virá quando perda de eficiência e custos altos de produção precipitarem inflação e balanços patrimoniais menos robustos para empresas americanas de atuação global.

Nessa projeção, “guerras comerciais” são o menor dos problemas. Confrontos em outras frentes, onde nacionalismo dá as mãos ao militarismo, passam a ser plausíveis.

Torçamos que, com retórica ofensiva a comércio e elites globais, Trump esteja apenas querendo “trucar” o mundo.

Se servirem para tornar as trocas internacionais menos assimétricas e elites mais dispostas a iluminar o lado escuro da globalização, suas muitas grosserias serão esquecidas.

Tal cenário é possível, mas pouco provável. Chance maior é que a administração Trump, com versão repaginada de “pão e circo”, seja apenas um “junk government”.

Emoções não faltarão. Hora de apertar os cintos e cruzar os dedos.

Fonte: Folha de S.Paulo, 20/01/2017.

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