Merval Pereira

Não é nem preciso ser bom entendedor para compreender a razão da presença do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na solenidade de lançamento da campanha Brasil Sem Miséria ontem, no Palácio Bandeirantes, em reunião da presidente Dilma com os governadores do Sudeste.

E também basta não ser ingênuo para entender o sentido do apoio que senadores independentes de diversos partidos deram à sua ação saneadora na semana passada.

A “faxina ética” tomou uma dinâmica própria que não é possível controlar, e ficou maior do que sua própria impulsionadora.

À medida que vai tentando domar as forças fisiológicas incrustadas nos ministérios, a presidente Dilma trata de fazer manobras táticas para não perder o controle da situação.

Foi por isso que havia decidido, seguindo conselhos do ex-presidente Lula, não demitir o ministro da Agricultura Wagner Rossi, o que serviria de tranquilizante para os caciques do PMDB, especialmente o protetor de Rossi, o vice-presidente Michel Temer.

Tal atitude poderia provocar estranheza, ou decepção, nos que, fora dos bastidores políticos, querem acreditar que a presidente Dilma está à frente de um processo de limpeza que não terá limites.

Mas daria à presidente o tempo necessário para reagrupar sua base eleitoral, impedindo que setores do PMDB e do PT se sentissem descompromissados com seu governo.

Uma espécie de recuo tático, não se sabe se para retomar a iniciativa mais adiante ou se para interromper o avanço contra a corrupção.

Mas a presidente Dilma teve a ajuda do destino com o pedido de demissão de Wagner Rossi, temeroso de que sua permanência no cargo gerasse novas ondas de denúncias.

Ele mesmo admite em sua carta de demissão que membros de sua família estavam sendo alvos de investigações, o que é quase uma confissão de que novos problemas poderiam surgir.

Ou pelo menos que algum familiar poderia ter que explicar alguma coisa e, como se sabe, quando alguém tem que explicar muito, não é bom sinal.

Tendo avançado, mesmo à sua própria revelia, na faxina ética, a presidente Dilma tem gastado a lábia de neo-política para tentar convencer seus aliados de que não parte dela a iniciativa de caçar corruptos nos ministérios e repartições públicas.

São os órgãos controladores que estão agindo, como o TCU, a Controladoria Geral da União, a Polícia Federal e, sobretudo, a imprensa, disse a presidente a um grupo de políticos com quem conversou para acalmar os nervos.

Não seria possível, nem mesmo legal, a presidente tentar impedir que algum desses órgãos parasse de investigar atos de autoridades.

Quanto à imprensa, aí nem se discute. O Palácio do Planalto não tem condições de interferir, e nem quer fazê-lo, e já deixou de lado a tentativa anterior de controle dos órgãos de comunicação.

Essa explicação não convence boa parcela de aliados, tendentes a acreditar em teorias de conspiração que indicam que partem do próprio Planalto, ou de seu entorno, as informações que jornais e revistas divulgam, colocando em risco o emprego de figurões de Brasília.

Seria uma estratégia que a presidente Dilma estaria usando para se livrar de ministros que lhe foram impostos na formação inicial do governo pelo ex-presidente Lula.

Certamente não é apenas coincidência o fato de todos os quatro ministros defenestrados serem ligados ao esquema anterior.

Dos que deixaram o governo sob acusações de corrupção, Antonio Palocci, Alfredo Nascimento e Wagner Rossi são heranças do governo Lula, e o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que saiu por divergências políticas explícitas, tinha com Lula uma posição política que lhe permitia palpitar em vários assuntos além da questão militar da pasta que ocupava.

Essa liberdade de atuação, Jobim não encontrou no governo Dilma, e acabou explicitando seu descontentamento de ter que conviver com “idiotas que perderam a cerimônia”.

Assim como o ex-presidente Lula vai trabalhando nos bastidores para consolidar a possibilidade de voltar à Presidência em 2014, e para efeito oficial nega essa possibilidade, também a presidente Dilma vai desmontando o Ministério herdado por Lula, e para todos os efeitos essa sucessão de demissões é pura coincidência.

Pressionada por sua própria base política, Dilma vem tentando desconstruir a ação de limpeza ética, afirmando que ela só existe na cabeça dos jornalistas.

Ontem, na mesma solenidade em que recebeu a solidariedade implícita do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ela tentou desvincular a faxina ética de suas prioridades, dizendo que a verdadeira faxina que pretende fazer é a da miséria no país.

Também o novo ministro da Agricultura, deputado federal Mendes Ribeiro, disse que questões de faxina são com a Polícia Federal, e que cabe a ele tocar bem seu ministério.

O senador Pedro Simon tem razão quando diz que a sociedade brasileira tem que tomar a frente da ação saneadora, e tenho a impressão de que isso já está ocorrendo, não em manifestações públicas, como se fazia nas antigas passeatas reivindicatórias, mas nos Facebooks da vida, onde a cidadania se expressa com mais propriedade nos dias de hoje.

Creio que, a esta altura, já não importa se a presidente Dilma sabia onde ia dar essa cruzada, que pode ter começado como uma simples jogada de marketing para sustentar sua popularidade.

O processo está em pleno desenrolar, e dificilmente os novos integrantes do governo, em qualquer escalão, encontrarão as facilidades de que desfrutavam anteriormente.

Viajar em jatinho de empresários, por exemplo, que já foi prática comum na promiscuidade entre agentes públicos e privados, proibida nos manuais de ética pública, só agora, da noite para o dia, transformou-se em pecado capital.

Fonte: O Globo, 19/08/2011

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