Aprisionados

Somos prisioneiros de nossos países, línguas, comidas, dinheiro, leis, ambições e tudo o mais que nos é explicita ou implicitamente infligido pelo teatro da sociedade onde não escolhemos nascer e morrer. Essas imposições, porém, não nos eximem de liberdade, honra e virtude.

Como não criar gradações em todos os lugares se o sistema é muito mais vertical do que horizontal? Como, neste Brasil no qual estamos aprisionados, não intermediar um emprego para um afilhado incapaz de roubar tostões mas com capacidade para embolsar bilhões?

Somos destemidos, mas não recusamos o pedido de um amigo. E, embora socialistas, celebramos missas de sétimo dia, pois recusamos o materialismo. Sem hipocrisia, como mostra a obra de Machado de Assis, não haveria Brasileiros.

Prisões são territórios especiais, como acentuaram Gustave de Beaumont e Alexis de Tocqueville, em 1833, quando as estudaram na América. No sistema quacker de manter os presos em isolamento absoluto, eles viram as raízes do despotismo do qual resulta uma vida pública controlada. Como a América então já era percebida como avançada, resolvia o delito num sistema fundado na liberdade com igualdade, sem religião oficial e aristocracia.

O prisioneiro deveria ser curado, regenerado, castigado ou punido? Ou simplesmente estigmatizado e vingado, como conta Alexandre Dumas, em 1844, em “O Conde de Monte Cristo”?

Uma justiça redistributiva e impessoal exige esquecimento. Criminosos devem ser punidos pelo Estado, e não por quem eles ofenderam, o que configuraria vingança e castigo.

Uma aquarela de Debret, reproduzida no belo livro de Julio Bandeira e Pedro Corrêa do Lago, mostra um fileira de oito escravos acorrentados, carregando alimentos para prisioneiros. Corria a década de 1820, e um soldado fardado e, quem sabe, comandado pelo mítico Major Vidigal, cerra a fila desses infelizes, que obtinham sustento alimentício graças à Santa Casa de Misericórdia. Seguiam para a prisão da Prainha, hoje Praça Mauá. Dois levam na cabeça farinha de mandioca; um outro par, um caldeirão com uma sopa de restos de animais; e, se olharmos com cuidado, descobrimos que alguns têm na cintura peixes secos. O governo, eis de onde procedemos, não tinha a obrigação de alimentar prisioneiros porque o regime não era de punição, mas de castigo e vingança.

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Deste ano santo(?) de 2017, vemos estourar no Brasil rebeliões em presídios federais no Amazonas e em Roraima. Não sou jornalista e não vou repetir o que se sabe. Vários presos foram desmembrados e alguns decapitados. Lembro que a decapitação era uma forma de castigo usada para traidores, infiéis e aristocratas. Ela foi usada nas civilizadas Escócia, Inglaterra, Alemanha e Itália e, com a grande Revolução Francesa, foi ressuscitada pelo médico Joseph-Ignace Guillotin como uma maneira de matar rápida e democraticamente, subtraindo dos nobres a morte por uma gloriosa decapitação. Resultado de um abandono inominável dos nossos presídios, essas sangrentas lutas faccionais espantariam o próprio demônio, esse grão senhor da maior prisão do cosmos: o inferno, no qual, como vislumbrou Dante, os castigos mais tenebrosos são infligidos numa ordem impecável. Os nossos jornais, porém, já assinalam os elos óbvios entre políticos e empresas no que poderia resultar numa “Operação Aspirador” e prender o que sobra — com o devido respeito a uma minoria honesta — desses espectros chamados “políticos”. Estamos por alguns minutos indignados, mas, como revela um avisado Eça de Queiroz, o incesto do Maia, a pusilanimidade do Basílio e o crime do padre Amaro foram devidamente esquecidos.

A infâmia do nosso caso é ser obrigado a descobrir o que sabemos. Que os bandidos estão dentro e fora das prisões e que em todas há regalias e privilégios. Na grande prisão chamada Parlamento, que os idiotas ainda ordenam em direita (o Dragão da Maldade) e esquerda (Deus), as facções se atacam com a mesma bestialidade. Nos presídios, onde tudo também é traficado, eles reproduzem o mesmo sistema e são mais claros nas suas intenções e, quem sabe, mais honestos nos seus propósitos, fazem o que os nossos “democratas” ainda titubeiam: caçam cabeças. É vergonhoso viver num país que não honra sequer os seus condenados.

PS: Se você, leitor, tem um colocação fora do Brasil para um medíocre cronista-antropologista pré-moderno de 80 anos, autor de uma dezenas de livros pouco lidos e muito roubados e criticados, faça o favor de informar.

Fonte: O Globo, 11/01/2017.

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