Aqui se paga

RETRATO DE ALEXANDRE SCHWARTSMAN

É difícil conseguir uma fotografia completa do mercado de trabalho no Brasil. Desde 2002 o IBGE conduz a PME (Pesquisa Mensal do Emprego), cobrindo seis regiões metropolitanas do país, que correspondiam em fevereiro a um universo de pouco mais de 43 milhões de pessoas em idade ativa (nessa pesquisa definida como todos acima de dez anos).

Destes, algo como 24,3 milhões estão engajados no mercado de trabalho e pouco menos de 23 milhões estão empregados. Resta 1,4 milhão de desempregados, ou seja, uma taxa de desemprego equivalente a 6% da força de trabalho.

A representatividade dessa pesquisa, contudo, acaba sendo limitada pelo seu escopo geográfico. Recentemente, porém, o IBGE passou a divulgar os resultados de uma pesquisa mais ampla (a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, Pnad Contínua), que cobre um universo de 203 milhões de pessoas, das quais 164 milhões em idade ativa (aqui definida como os maiores de 14 anos).

De acordo com a Pnad, no trimestre terminado em fevereiro, perto de 100 milhões de pessoas participavam do mercado de trabalho, das quais pouco mais de 92 milhões estavam empregadas.

Assim, os desempregados correspondiam a 7,4 milhões, ou seja, uma taxa de desemprego de 7,4%, superior à registrada pela PME, provavelmente mais próxima à taxa “verdadeira” do que a estimada pela PME (trata-se, é bom lembrar, de estimativa a partir de uma amostra, não de entrevistas com mais de 200 milhões de pessoas).

A nova pesquisa, porém, inicia-se apenas em 2012, o que impossibilita uma análise de prazo mais longo para o mercado de trabalho. De qualquer forma, é possível observar certo padrão da evolução da taxa de desemprego ao longo do ano: ela tem sempre um pico no primeiro trimestre e cai tipicamente até o trimestre findo em novembro, quando retoma a trajetória ascendente.

Apesar da deterioração do mercado, salários nominais não só seguem crescendo como têm se acelerado

Com base nesse padrão (e um gigantesco salto de fé), é possível “limpar” os números das influências sazonais e produzir uma estatística que permita comparar o desemprego registrado, digamos, em março àquele anotado em novembro. Em jargão, trata-se do número “dessazonalizado”, ou seja, livre do sobe e desce que se deve apenas à passagem do calendário. Podemos assim analisar de forma mais rigorosa a evolução mensal do desemprego.

Daí se depreende que a taxa dessazonalizada de desemprego, depois de recuar até 6,6% no trimestre terminado em fevereiro de 2014, teria se elevado de forma contínua até o mesmo período em 2015, atingindo 7,2%, de volta aos níveis registrados em meados de 2013.

Observa-se, é verdade, o mesmo fenômeno de redução da participação no mercado de trabalho (o abandono da busca de emprego) sobre o qual escrevi há algumas semanas, mas ele foi parcialmente revertido desde julho do ano passado, ajudando a elevar a taxa de desemprego.

Posto de outra forma, números de maior abrangência indicam que a piora do mercado de trabalho não é um acontecimento restrito aos últimos poucos meses, mas que se estende há um ano, na esteira da desaceleração do crescimento.

Isto dito, a Pnad revela um desenvolvimento desconcertante: apesar da deterioração do mercado, salários nominais não apenas seguem crescendo mas têm se acelerado de meados de 2014 para cá, aumentando pouco mais de 8% na comparação com o mesmo período do ano passado, pressionando adicionalmente a inflação, em particular a de serviços.

O descaso do BC para com a meta fez com que trabalhadores, em vez de se fixar nela, passassem a usar tanto a inflação passada como as elevadas expectativas sobre a inflação futura para reajustar seus salários. Assim, o custo em termos de aumento do desemprego para reduzir a inflação se tornou muito maior do que seria com expectativas ancoradas. Não foram poucos os alertas a respeito; pagamos agora o custo do descaso.

Fonte: Folha de S. Paulo, 15/4/2013

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