As armadilhas da “contabilidade mental” para o investidor

“Sempre pense no seu ponto de entrada como o fechamento da noite anterior.” (Paul Tudor Jones)

Se alguém vai ao cinema e, no momento de comprar o ingresso percebe ter perdido o dinheiro que estava no bolso, provavelmente irá comprá-lo assim mesmo, usando alguma outra fonte (talvez pegando emprestado).

No entanto, se esta mesma pessoa já havia comprado o ingresso e descobre que o perdeu dificilmente irá comprá-lo uma segunda vez. Em ambos os casos o custo para ver o filme seria o mesmo: o dobro do normal. O que mudou de um caso para o outro, então?

Dinheiro não tem carimbo. Trata-se de um meio de troca válido para obter qualquer produto demandado. Todavia, no momento em que “carimbamos” aquele dinheiro, comprando algum ativo específico, realizamos uma espécie de “contabilidade mental”, registrando a operação em um balancete no cérebro.

É justamente isso que ocorre quando o ingresso do cinema já foi comprado. Ao verificar que ele foi perdido, comprar um novo ingresso significaria registrar mentalmente o dobro do preço normal para aquele bem. O filme parece caro de repente.

Por outro lado, tendo perdido o dinheiro ainda não carimbado, a pessoa não associa que a compra do ingresso custa o dobro. Para ela, o dinheiro perdido servia para inúmeras coisas, e não necessariamente era o dinheiro do ingresso. Não havia ainda um registro contábil na mente.

Essa percepção foi chamada de “mental accounting” pelo economista de Chicago Richard Thaler, na tentativa de descrever o processo de categorizar e agrupar resultados econômicos em diferentes contas na mente.

A aplicação desse conceito pode ser útil no campo dos investimentos também. Muita gente compra ações e carimba aquele dinheiro, gravando na memória o preço pago pelo ativo. Com as oscilações de preço, o investidor então começa a analisar seu desempenho e tomar medidas sempre com base naquele preço antigo pago no momento da compra.

Essa postura pode ser bastante perigosa, principalmente em mercados com tendência de baixa. Quando o preço da ação começa a cair em queda livre, o investidor fica paralisado, e evita vender porque espera recuperar o prejuízo.

Ele está decidindo o que fazer com base na memória do preço de entrada, e não se concentrando no que deve ocorrer com o ativo em si. Entretanto, os mercados não ligam para o seu preço de compra. O racional não é fazer contas de quanto falta para recuperar as perdas passadas, e sim refletir sobre qual deve ser a tendência do ativo agora, independente dos seus registros contábeis.

O que importa não é o passado, mas o que está por vir. Saber reconhecer erros e realizar prejuízos é fundamental para a sobrevivência nos mercados. Tomar decisões emocionais, se negando a vender apenas porque isso significaria assumir um erro, pode ser o caminho mais rápido para a bancarrota. O ego não deve ficar acima da razão.

O preço pago pela ação é totalmente irrelevante para a decisão de quando vendê-la. Tal medida deve levar em conta apenas as expectativas em relação ao futuro da ação. Afinal, o dinheiro da compra das ações pode ter sido “carimbado” na memória, mas deve-se lembrar sempre que os ativos podem ser transformados novamente em dinheiro “sem carimbo” a qualquer momento, principalmente em se tratando de ativos com alta liquidez.

O apego emocional ao preço de entrada na ação deve ser evitado a todo custo. O preço de entrada é sempre o atual. E o relevante é para onde deve ir esse preço de agora em diante.

Para concluir, acrescento outro exemplo de “mental accounting” para reforçar a mensagem. Um jogador que ganha R$ 500 na roleta de um cassino tende a continuar jogando e colocando o dinheiro todo no risco, mesmo que antes ele não estivesse disposto a arriscar a mesma quantia do próprio bolso.

Isso ocorre porque ele não considera esse dinheiro como sendo seu ainda. Não houve um registro mental, pois ele está usando apenas seu lucro em fichas. Acontece que o lucro não realizado poderia ser transformado a qualquer momento em dinheiro.

Na prática, o resultado objetivo é exatamente o mesmo, ainda que o jogador possa se sentir diferente. O mesmo ocorre com todos os investidores que não sentem estar perdendo dinheiro na baixa apenas porque estão entregando lucros “não realizados”. Um mecanismo razoável de proteção contra este auto-engano pode ser uma constante marcação a mercado dos ativos. Nunca é demais repetir: não importa o preço de antes; apenas o esperado para o futuro. O que passou, passou!

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