As crises e o poder corretivo do aumento da demanda por liquidez

Certa vez perguntaram ao então presidente Jânio Quadros porque ele bebia. Rápido, de maneira irônica, respondeu: “porque é líquido”. Um chiste, claro. Esse fato trouxe-me à mente de que se questionasse um economista porque mantém dinheiro em caixa, por certo ele repetiria, desta vez sério:  “porque é liquido”. A liquidez em economia é definida em função da facilidade com que os ativos são convertidos em moeda. “A moeda é o único bem que pode ser empregado instantaneamente na satisfação das necessidades humanas”, diz o economista e filósofo americano Hans-Hermann Hoppe (The Yield from Money Held Reconsidered).  Mantê-la em caixa assegura proteção contra as incertezas futuras.  Ludwig Von Mises, precursor da escola econômica austríaca, nos ensina: “num sistema em que não houvesse qualquer incerteza a respeito do futuro, ninguém necessitaria manter dinheiro em caixa” (Ação Humana).  Esse sistema, porém, não existe a não ser no pensamento keynesiano. Nele, o dinheiro está sempre em circulação, ou seja, está sempre sendo gasto em bens de consumo ou de investimento.  Caso contrário, é considerado ocioso e improdutivo na economia e irá reduzir a produção e o consumo futuros.

A falsidade da proposta keynesiana fica transparente quando se analisa as questões econômicas pela Praxeologia, ciência da ação humana, da qual a Economia é a parte mais desenvolvida. Nela os indivíduos são seres humanos (e não inanimados!), em constante interação, tentando aumentar os benefícios e reduzir os custos e as incertezas, guiados por estímulos e desestímulos que surgem constantemente no mercado. As crises dão um bom exemplo de como os indivíduos agem. Nessas ocasiões as incertezas crescem, instigando os agentes econômicos a buscarem refúgio na liquidez, via aumento da demanda por moeda.  Essa ação, benéfica, acaba: a) majorando o valor da moeda; b) aumentando a proteção contra as incertezas; e c) reduzindo os preços dos bens não-monetários. São resultados essenciais na dissipação rápida da crise. Logo, não há nada mais irracional do que as recomendações keynesianas de se compensar, nessas ocasiões, o aumento da demanda por liquidez com novas emissões de moeda e gastos governamentais. Primeiro, trata-se de uma compensação impossível: são moedas que derivam de ações praxeológicas distintas, no tempo e espaço. Segundo, é uma medida desnecessária: o próprio mercado reordena o sistema de preços. Terceiro, é uma ação deletéria: as novas emissões vão impedir a valorização da moeda, anular a proteção contra a alta da incerteza e evitar a queda dos preços não-monetários, acabando por dificultar e prolongar o ajuste da crise, com custos econômicos e sociais enormes.

Keynes foi irracional até em seu conhecido brocado: “não adianta levar um cavalo à fonte, se ele não tem sede”, criado em defesa dos gastos governamentais. Ele também é falso: faz uma analogia imprópria da liquidez da água com a liquidez da moeda. Seria mais apropriado se tivesse substituído o cavalo por um gambá: evitaria ao menos outra confusão, a da liquidez monetária com a da etílica.

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