As duas faces da Índia

Estive recentemente na Índia pela terceira vez. O país que ingressou há alguns anos no fechado clube nuclear, que planeja lançar um foguete à Lua em breve e que tem uma dezena de centros de excelência, os Indian Institute of Technology, moldados a partir do MIT norte-americano, convive com uma das maiores concentrações de renda do globo e níveis de pobreza aterradores.

Com mais de 1,2 bilhão de habitantes, a Índia representa 17,5% da população mundial (contra 19,4% da China). Dados oficiais mostram que um por cento dos habitantes indianos são milionários e bilionários (55 em 2010, segundo a revista “Forbes”); 10% integram a classe média alta e outros 13%, a classe média baixa. Os restantes 960 milhões, ou 77% dessa população vivem abaixo do nível de pobreza com poucas chances de inclusão na economia de mercado.

Segundo o primeiro-ministro da Índia, Moammah Singh, os 77% dos moradores que vivem com menos de um real (20 rupias) por dia são chamados de pobres e vulneráveis. 88% desse grupo são formados por castas e tribos, e 85% são muçulmanos, a maior parte analfabeta e sofre de desnutrição. O sistema de castas, abolido formalmente pela constituição indiana e o hinduísmo, uma espécie de união de crenças com estilo de vida, é em grande parte responsável pela aceitação dessa situação e conformismo dos mais pobres. Essa realidade não impede, em casos isolados, contudo, a ascensão social e mesmo política, como ocorre no estado de Kerala, onde uma mulher, vinda da classe mais pobre e membro do Partido Comunista, governa há mais de vinte anos.

Durante as minhas duas semanas entre Goa, Rajastão e pela capital Delhi, dois assuntos se mantiveram prioritariamente na mídia: inflação e corrupção.

A economia cresce a cerca de 10% e a inflação, medida pelo índice de preço ao consumidor, chegou a 8,5%, puxada pela alta dos preços dos alimentos. O governo estava tomando medidas para reduzi- la a 7% nos próximos meses.

No quesito corrupção, discutiam-se os bilhões desviados pelo funcionário responsável pela organização dos Jogos da Comunidade britânica em Delhi; a perda de US$ 40 bilhões na venda de concessões de telecomunicações; e o desaparecimento de mais US$ 40 bilhões no estado de Uttar Pradesh destinados a programas subsidiados de alimentos e combustível para os pobres. Publicou-se que 75% dos parlamentares e membros das assembleias legislativas têm registros criminais ou estão sendo investigados pelo equivalente a nossa Polícia Federal desde desvio de recursos públicos a assassinatos.

O governo da Índia começou a adotar medidas concretas contra políticos poderosos. Um ministro de estado foi demitido e outro, que dirigia a organização dos Jogos, foi preso, junto com o ministro das Comunicações, responsável pela concorrência na área de comunicações. A situação despertou tanta reação na opinião pública que o primeiro- ministro Singh, que raramente concede entrevistas, se sentiu obrigado a ir à televisão responder a perguntas de jornalistas sobre os escândalos e sobre as providências que o governo estava tomando. No meio da entrevista, a que assisti, o primeiro-ministro, candidamente observou que seu partido não tinha maioria no Congresso e como se tratava de um governo de coalizão teria de atuar com cautela para punir os culpados. Do contrário, teria de convocar eleições a cada seis meses…

Nós aqui no Brasil, que não estamos acostumados com esses problemas, estranhamos…

Depois de conhecer mais de perto a situação social da esmagadora maioria da população da Índia, ficou reforçada a minha convicção de que o Brasil só não resolverá a situação de miséria em que se encontram ainda cerca de 16 milhões de concidadãos se não quiser. No tocante à inclusão social, o Brasil apresenta um quadro, embora ainda doloroso, administrável. Comparando a qualidade dos centros de excelência e de algumas universidades da Índia com o nosso cenário universitário, também ficou reforçada minha certeza de que a reserva de mercado universitário brasileiro tem de ser quebrada para permitir, como na maioria dos países, a competição intelectual com estrangeiros qualificados.

Fonte: O Globo, 10/05/2011

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