As lições do fracasso da ginástica brasileira

Os Jogos Olímpicos estão a pleno vapor e, a julgar pela distância entre as expectativas de vitória e a conquista efetiva de medalhas, tudo indica que ainda não será desta vez que o Brasil se firmará como uma potência esportiva.

E, lamentavelmente, é inevitável comparar a frustração diante das expectativas de êxito não concretizadas com a sensação de que, também no mundo da economia, o país tem se revelado um mestre do desperdício de oportunidades.

O Brasil tem potencial de crescimento, tem recursos naturais abundantes, tem material humano – mas, toda vez que parece tomar o rumo virtuoso, a chance acaba ficando pelo caminho.

Nos Jogos, isso também tem acontecido. Veja, por exemplo, o que ocorreu com a equipe de ginástica olímpica. Nos Jogos de 2004, em Atenas, e de 2008, em Pequim, a evolução do time brasileiro parecia indicar que uma medalha olímpica no esporte era uma questão de tempo.

O grande responsável pela evolução foi o técnico ucraniano Oleg Ostapenko, que levou as atletas brasileiras para o Paraná e impôs a elas um ritmo de treinamento intenso, semelhante àquele que se vê nos países que lideram esse esporte.

Só que o caminho responsável pelo esboço de sucesso brasileiro foi considerado árduo demais e, liderados por alguns atletas que preferiam treinar sob um regime mais frouxo no Rio de Janeiro, preferiu deixar tudo como era antes de o ucraniano iniciar seu trabalho.

O resultado foi o retrocesso retumbante visto em Londres. Se nos Jogos anteriores o Brasil se aproximou do pódio, com Daiane dos Santos e Diego Hypólito, agora a equipe ficou a quilômetros das finais.

Antes que se culpe a fatalidade pelo insucesso, convém perguntar pela razão que fez a delegação brasileira andar para trás de forma tão eloquente.

É lógico que, ao abdicar do treinamento rigoroso, os dirigentes da ginástica brasileira deram curso ao velho hábito nacional de aplaudir o talento mediano ao limite do endeusamento – como se isso fosse suficiente para assegurar o sucesso.

Ou, como se o trabalho árduo não passasse de um recurso à disposição dos medíocres… O mais triste de tudo é que esse padrão se reproduz em quase todos os domínios da vida brasileira – e tudo aquilo que exige um esforço além do convencional é descartado como algo impossível ou, então, indesejável.

Enquanto o trabalho foi feito, a ginástica brasileira evoluiu. E agora, é preciso começar do zero

É mais ou menos o mesmo padrão que justifica, por exemplo, a eterna mania brasileira de evitar os temas polêmicos que precisam ser enfrentados pelo Congresso Nacional.

Enquanto algumas medidas mais duras e, por consequência, impopulares são evitadas em nome das plataformas eleitorais dos senhores parlamentares e do próprio governo, o país perderá cada vez mais oportunidades de se transformar numa potência.

O problema é que, de vez em quando, é preciso tomar algumas medidas mais duras, sob pena de parar no tempo – ou até andar para trás.

Os métodos de Oleg Ostapenko certamente não eram populares entre os atletas (embora sempre tenham sido aprovados, é bom que se registre, por Daiane dos Santos, não por acaso a melhor de todos os atletas que o Brasil já teve nesse esporte).

Mas, enquanto o trabalho foi feito, a ginástica brasileira evoluiu. E agora, é preciso começar do zero. Mais uma vez.

Fonte: Brasil Econômico, 31/07/2012

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