Continua em exibição nos mercados financeiros a série “Desaquecimento global”, em seu episódio III, versão norte-americana: “A ameaça de contaminação”. Há duas rotas pelas quais a dimensão financeira da crise nos mercados acionários e de crédito poderá contaminar os níveis de produção e de emprego na economia real. A primeira é direta, disparando instantaneamente a temível recessão pela interrupção do crédito, combustível necessário ao funcionamento das engrenagens produtivas. O bloqueio dessa rota explica a injeção de centenas de bilhões de dólares pelos principais bancos centrais do mundo.

“Quando os bancos são forçados a contrair empréstimos e vender ativos em busca de liquidez, o boom estimulado pela expansão excessiva de crédito se transforma em recessão. O Federal Reserve Act, de 1913, criou o banco central americano como um “emprestador de última instância” para salvar bancos com problemas”, registra Murray Rothbard, em “Uma história da moeda e dos bancos nos Estados Unidos” (2002).

Com maior ênfase sobre a contração monetária permitida pelo Fed, a subseqüente crise bancária e seus efeitos sobre os fluxos de renda e a geração de empregos, Milton Friedman, prêmio Nobel de Economia, atribui a Grande Depressão aos erros do banco central, em seu clássico “Uma história monetária dos Estados Unidos” (1963). “O Fed foi criado por homens que experimentaram os pânicos das crises bancárias anteriores, particularmente as falências de 1907. Seu objetivo era fornecer liquidez elástica aos bancos, redescontando créditos, para acomodar as necessidades do comércio e dos negócios. Mas falhou miseravelmente”, condena Friedman.

O atual presidente do Fed, Ben Bernanke, em homenagem pública a Friedman pouco antes de seu falecimento, reconheceu: “Você estava certo, nós [o Fed] causamos a depressão, mas graças a você não acontecerá novamente.” Era uma garantia de pronta ação do Fed para impedir qualquer ameaça de colapso do sistema bancário.

A segunda rota de impacto da crise das bolsas e do entupimento dos mercados de crédito sobre a atividade econômica é indireta. A queda do preço das ações e dos imóveis derruba a riqueza financeira e as expectativas de fluxos de renda futura dos consumidores, ao mesmo tempo em que a restrição da liquidez, o aumento dos juros e a elevação do spread de risco dificultam seu acesso aos mercados de crédito. Lubrificante das engrenagens produtivas, o crédito é também o combustível do consumo. E o consumo de massa são dois terços da economia norte-americana. As expectativas (queda dos preços dos ativos) afetam os fundamentos (derrubam o consumo), que realimentam as expectativas adversas, derrubando a produção e o emprego.

O bloqueio da primeira rota de contágio é a batalha dos bancos centrais travada nos mercados de crédito, abrindo as torneiras de redesconto para o sistema bancário. Já o bloqueio da segunda rota depende da estabilização das bolsas, antes que o efeito-riqueza derrube irreparavelmente o consumo. Mas, calma. O Brasil, desta vez, não faz o papel de bandido no filme. Por enquanto, é apenas um figurante.


(O Globo – 20/8/2007)

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