Já que o presidente Lula se apresentou como um novo ator no processo de negociação no Oriente Médio, o pessoal se apressou a lhe passar algumas tarefas.

Lula criticou a luta aberta entre os dois grupos que disputam a liderança palestina – o Fatah e o Hamas – e se ofereceu para fazer a mediação. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, disse que conhecia bem o problema, que a mediação já era feita por governos de países árabes e pediu: Lula poderia dar uma palavra com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e pedir que ele pare de financiar e instigar o Hamas, que não apenas ataca o Fatah, como se opõe a qualquer negociação pela paz.

Na Jordânia, pediram ao presidente Lula que falasse a mesma coisa com o presidente da Síria, Bashar Assad, que também apoia o Hamas.

Não é conversa simples.

No quadro da “nova política” do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de conversar com todos os interlocutores, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, pediu à Síria que se distanciasse do Irã. Logo depois disso, o presidente sírio ofereceu, em Damasco, um banquete para Ahmadinejad, com as presenças de Khaled Meshaal, líder do Hamas, e de Hassan Nasrallah, do Hezbollah, braço da Síria no Líbano. Como a Síria trata-se de uma ditadura, a imprensa local só publica o que o governo quer. E circulou por lá uma piada de Bashar Assad: disse que havia entendido mal o pedido de Hillary Clinton, sobre guardar distância, e por isso havia eliminado a exigência de visto de entrada para cidadãos do Irã.

É nesse ambiente que Lula acredita poder fazer a diferença. Tanto que, da Jordânia, despachou o chanceler Celso Amorim para passar os recados ao presidente sírio.

Qual será a reação de Assad?

Aqui, pelo lado ocidental, os governos dos Estados Unidos e da França, entre outros, também solicitaram os serviços de Lula: dizer a Ahmadinejad que ele não deve buscar as armas nucleares nem continuar negando o Holocausto e clamando pela destruição do Estado de Israel. Lula disse que já falou e que vai falar de novo.

Qual a reação de Mahmoud Ahmadinejad?

Há, porém, uma questão internacional para a qual a diplomacia de Lula poderia fazer a diferença: Cuba.

A ilha é uma sobra da guerra fria e nota-se, pelo mundo afora, uma clara disposição de encerrar esse capítulo. Obama já fez gestos na direção da normalização das relações com o país.

Em contrapartida, o pessoal espera que a direção cubana faça gestos na direção de uma abertura política e econômica. Ninguém está pedindo que o regime da ilha e o partido comunista cubano se imolem em praça pública. Mas que eles se movimentem no sentido de alguma distensão.

Lula tem a confiança de Fidel Castro e de Raul Castro. Dispõe, ainda, de alguma credibilidade no governo americano e na comunidade internacional. O seu papel seria o de ajustar o ritmo das aberturas. Por exemplo: Lula seria o portador de uma garantia aos irmãos Castro, pela qual a libertação dos dissidentes políticos corresponderia a medidas de liberação do comércio a serem tomadas por Barack Obama.

Mas, para desempenhar esse papel, o presidente Lula e seus mais próximos assessores deveriam acreditar ou entender que o regime cubano precisa se abrir e caminhar no sentido da democracia.

Ocorre que Lula endossa as práticas arbitrárias do regime cubano. Dizem seus assessores que, em particular, o presidente Lula faz suas ressalvas. Mas, pelo visto, os irmãos Castro, se ouviram algo, não deram muita bola. E se eles, que são amigos do peito, fazem assim, o que dizer das reações de Assad e de Ahmadinejad?

Como disse Miriam Leitão: “Se o presidente Lula não consegue fazer a mediação entre parlamentares brasileiros na disputa dos royalties…”

No prazo?. Da série “cumprindo prazos… dilatados”: o governo Lula havia anunciado, com palanque, que a Ferrovia Transnordestina (mais de 2 mil quilômetros cortando os Estados do Piauí, Ceará e Pernambuco) ficaria pronta em dezembro de 2010.

Em breve, o presidente Lula vai à cidade de Salgueiro, em Pernambuco, mais ou menos no meio do traçado, para anunciar, com palanque, a conclusão da obra em abril de 2012, sem falta.

Aeroportos. Dois governadores de Estado, José Serra e Aécio Neves, e mais o presidente da empresa Gol, Constantino Junior, reclamaram na semana passada da inação do governo federal no que se refere às reformas de aeroportos.

Serra disse que preparou um plano de concessão dos aeroportos regionais paulistas, já que os governos federal e estadual não têm recursos para ampliá-los, enquanto empresas privadas têm interesse e dinheiro. Mas o plano não foi aprovado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que não colocou nada no lugar.

Serra também reclamou da indefinição do governo federal na construção do Terminal 3 do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, e da concessão de Viracopos (Campinas).

Aécio Neves criticou a indefinição na reforma e ampliação do Aeroporto de Confins. E o presidente da Gol disse que o sistema aeroportuário brasileiro, muito especialmente o de São Paulo, não dá conta do crescimento do setor.

O governo Lula não quer fazer concessões à iniciativa privada porque está num ímpeto estatizante, em ano eleitoral. Só que o Estado não tem os recursos para fazer nada de substancial. Fica por isso mesmo.

Fonte: Jornal ” O Estadao de S.Paulo” – 22/03/10

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