Dois insondáveis mistérios dominam as conversas sobre economia nos botequins da República: o primeiro tem sido descrito como “o fenômeno do descolamento”, e está mais para um paradoxo, segundo o qual quanto mais podridão aparece na política menos relevante ela se torna para a economia. O segundo, mercadoria importada, já um tanto batida, atende pelo nome de “investment grade”. A fim de evitar mais uma digressão sobre esse assunto – o leitor já deve estar saturado –, vamos designar este segundo mistério de forma mais intuitiva, como um protocolo ou um código. “Protocolo Delta”, “Código Da Vinci”, “Grau de Investimento”, o nome pouco importa, o fato é que o povo não fez ainda um juízo sobre este segundo mistério, que tem a ver com a entrada em um novo estado da existência, embora já tenha atinado que é por aí que se explica esse extraordinário “Paradoxo do Descolamento”.

A contaminação da economia pelos descaminhos da política é doença antiga no Brasil, onde a interferência do Estado é tão leve quanto as obras completas do Professor Ministro Mangabeira Unger. Mas isso foi antes do início da caminhada para o “Protocolo Delta”, diante do qual tudo parece se modificar. A mudança começa quando o Brasil passa a ter uma moeda digna desse nome, e empreende reformas importantes, destacadamente a privatização – o mais eficiente programa anticorrupção que se podia cogitar no Brasil. Basta pensar no número de nomeações políticas eliminadas e de privilégios descontinuados. Não haveria tanto gás lacrimogêneo se assim não fosse.

De 1994 para cá nada mais fizemos que adotar os cânones de uma economia normal globalizada. E foi isso que mudou a química entre a política e a economia, de modo a afastá-las. O “Protocolo Delta” é apenas uma etapa do caminho, o momento em que o viajante ganha seu cartão de milhagem especial e alguns merecidos privilégios.

A interpenetração das economias nacionais avançou tanto que ninguém mais estranha que as pessoas identifiquem uma espécie de entidade supranacional, uma “economia internacional”, uma “civilização globalizada” com identidade singular, que se relaciona com nosso velho mundo dos países mais ou menos como a “internet” com o mundo dos tijolos.

Tenho certeza que o leitor deve estar cheio dessas exaltações à globalização, mas há sempre uma novidade, desta vez ligada ao protocolo de contato. Deve-se ter clareza de que a comunicação com a civilização globalizada pressupõe vários códigos. Alguns são menos importantes, como o esperanto ou o volapuque. Mas de outros, como os cânones da OMC (Organização Mundial do Comércio), os do Comitê de Basiléia, bem como consensos internacionais em política econômica, não se pode escapar.

Pois bem, o segundo mistério, como é comum nos romances do gênero, é uma chave, um bilhete de entrada, uma porta que se abre para uma nova realidade. O “Protocolo Delta” é o cânone mais importante, o código dos códigos, é uma etapa fundamental na incorporação do espaço soberano no contexto maior da economia globalizada. O que vem em seguida é apenas reforço: entraremos para a OCDE, nossas empresas crescerão em presença no exterior, com isso aderindo a códigos e posturas internacionais, e as políticas macroeconômicas serão guiadas por regras iguais às empregadas na Nova Zelândia, na Letônia ou no Reino Unido. Talvez cheguemos a um velho ideal vaticinado por John Maynard Keynes, segundo o qual a boa condução das políticas públicas tornaria as autoridades econômicas anônimas, dignas e imunes aos políticos, como os dentistas. À medida que nos aproximamos do cânone, tudo parece harmônico, tudo converge. Os rádios quebrados funcionam, tal como os maus governos. O momento é meio mágico. Não vamos perdê-lo.

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