Que tal ensinar música para nossos alunos do ensino fundamental? E Sociologia, incluindo, por exemplo, cultura indígena e negra? Faz sentido, parece uma boa causa. Mas o último Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês) – testes aplicados a estudantes de 15 anos de 65 países -, cujos resultados foram divulgados na semana passada, mostrou que nossos rapazes e moças ainda não são bons em língua, Matemática e Ciências (Física, Química e Biologia, no essencial). Na verdade, ficaram nos últimos lugares, embora tenham melhorado em relação ao teste anterior, de 2006. Não seria o caso de concentrar os esforços de todos em aperfeiçoar o ensino daquelas disciplinas?

Muitos argumentam que não. Dizem que a escola deve formar bons cidadãos, com formação em humanidades, artes e socialização. Faz sentido, de novo. Seria possível argumentar que a função principal da escola é ensinar justamente aquelas disciplinas do Pisa – como se entende amplamente pelo mundo afora. Mas podemos evitar perder tempo com essa discussão.

Ocorre que os alunos brasileiros não estão propriamente com o seu tempo todo tomado. Comparando com países que vão melhor, temos menos dias de frequência à escola e menos horas por dia. Logo, é possível reforçar o ensino das disciplinas básicas e, ao mesmo tempo, introduzir humanidades, artes e cidadania.

Qual é a melhor maneira de ensinar música? Ou qual o começo mais interessante para as crianças? Tocar instrumentos – na verdade, começar brincando com eles – e, com o tempo, formar bandas, conjuntos e orquestras. Eis uma excelente atividade para os fins de semana nas escolas.

Qual a melhor e mais atraente maneira de conhecer a cultura indígena? Visitando as aldeias, estando com o povo. Outra excelente atividade para feriados e mesmo para parte das férias, por que não?

O problema, reconhecemos, é que isso dá trabalho e toma tempo. Também custa algum dinheiro. Vai daí que, pode apostar, essas boas intenções terminam em desastres. Colocam na grade uma aula de música, pura falação, sem instrumentos; outra de Sociologia e culturas antigas, sem sequer boas fotos em PowerPoint, e acabou. Vamos falar francamente: além de dar emprego a formados nessas matérias, não serve para nada.

Assim, o ensino, que já é precário em língua, Matemática e Ciências Exatas e Biológicas, se torna ainda ruim em humanidades, artes e cidadania. Isso é grave problema pessoal, social e econômico.

A educação tem duas funções: uma, a de igualar as oportunidades; outra, de permitir o avanço pessoal e, com isso, entregar à sociedade profissionais e cidadãos que gerem riqueza para si e para o País. No regime capitalista, a desigualdade é inevitável, mas ao fim das histórias. Como funciona pelo mérito, pela capacidade de empreender, pelo trabalho duro e eficiente, pelas ideias inovadoras e pelo talento, o capitalismo premia os mais bem-sucedidos. Alguns vão ganhar mais, outros ficarão pelo caminho.

O Estado pode reparar algumas situações dramáticas – atendendo, por exemplo, os muito pobres – ou ainda oferecer condições básicas de vida, mas não tem como igualar a renda, a riqueza e o bem-estar das pessoas. O melhor que o Estado pode fazer está na partida, no início da vida das pessoas, na preparação para a atividade profissional. Pode igualar as oportunidades ou chegar muito perto disso. Ou, inversamente, quando falha, pode ser a causa de mais desigualdade.

No Pisa, a melhora de nossos alunos, significativa na média, esconde um fato grave. Levando em conta a renda familiar dos alunos, a realidade é triste: melhoram os nossos alunos mais ricos; os mais pobres ficaram no mesmo lugar.

Ou seja, os mais pobres já chegam à escola em desvantagem. E o sistema educacional amplia essa desigualdade ao longo dos anos. Considerando que estamos em plena era do conhecimento, o desastre não poderia ser maior.

A escola pública fundamental e média, no conjunto da obra, não cumpre suas funções, senão muito parcialmente. Há unidades boas aqui e ali, mas as deficiências são nacionais. A falha é de políticas públicas, para usar expressão tão utilizada por aqui e tão mal utilizada. Oferecer igualdade na partida é função essencial do Estado – todos dizem isso. Mas, nos orçamentos públicos – como nota a diretora da Fundação Lemann, Ilona Becskeházy -, só 3% do gasto total vai para educação e cultura. É claramente insuficiente. Como o governo arrecada um monte de impostos, a conclusão é óbvia: não falta dinheiro, falta gastar de acordo com as reais prioridades.

O ministro da Educação, Fernando Haddad, nos mostrou como o gasto público geral em educação (da União, Estados e municípios) tem sido elevado todos os anos. Está hoje em torno de 5% do PIB e ele acredita que pode chegar em 7% em quatro anos. O ministro aponta também que não basta aumentar o gasto, mas aplicar os recursos com mais competência e eficiência, no que também está certo. Sem o dinheiro não se vai a lugar algum, mas os dados mostram que nem sempre mais dinheiro equivale a melhores escolas.

O certo é que se precisa de um trabalho de convencimento e persuasão, de modo a pôr a escola no topo de nossas prioridades. E encarar mudanças fortes. Por exemplo: Haddad está preparando um Exame Nacional de Professores, que trará avanços em diversas direções. A primeira, claro, é a melhor avaliação dos mestres, condição essencial para estruturar a carreira. A segunda é melhorar a qualidade dos professores no País todo.

Hoje, para uma prefeitura do interior recrutar cinco professores precisa fazer algum tipo de concurso. Coisa pequena, não atrai as empresas de concurso, a seleção custa dinheiro e sai precária. O Exame Nacional de Professores, feito de maneira mais eficiente, elimina essa dificuldade. Basta à prefeitura anunciar que contrata pela classificação na prova nacional.

Trata-se de uma providência simples, mas com enormes vantagens. Pode ser o ponto de partida para uma reorganização de carreiras, inclusive com melhores salários e planos de evolução, de modo a trazer os melhores para ensinar nas escolas públicas.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 13/12/2010

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