Em ano de grandes agitações políticas e medíocre em crescimento econômico, um balanço do estado da cidadania brasileira viria bem a calhar ao lado da enxurrada de retrospectivas que a mídia exibe todo dezembro. Se há tantos balanços financeiros das empresas, que interessam particularmente aos cidadãos investidores, mais ainda deveria haver dos governos que se encerram, das conquistas e fracassos de suas políticas setoriais, que interessam a todos os cidadãos eleitores. As grandes empresas brasileiras seguem ousadas rumo a um mundão de conquistas nos mercados globais. Mas, tirando a bolha de crescimento dos mercados do Norte/Nordeste, às expensas das bolsas da Viúva, os mercados internos das demais regiões permanecem devagar, quase parando. E a economia amargando um empate, já na prorrogação, para salvar da desonra nacional a lanterninha do crescimento entre todos os países emergentes. Na vida política, segue o show surrealista do Cirque des sans-loi, onde a trupe de deputados ilusionistas e senadores contorcionistas evoluem com a maior desfaçatez e cinismo na larga avenida da impunidade corporativa. E não apenas suas excelências parlamentares comem do fel da vergonha nacional. No finalzinho deste ano de arrepiar até mesmo os mais calvos cidadãos, chega a vetusta magistratura e nos brinda com a sua quota-parte de corporativismo, ao julgar em causa própria aumentos de seus já privilegiados holerites. Como mancheteou o Globo, o poder judiciário brasileiro, sempre avesso ao interesse da opinião pública, e às sorrelfas do controle social da cidadania, constrói mais palácios do que presídios! Mas ainda que se evidenciem os sinais de exaustão da opinião pública por conta de debates eleitorais tão diversionistas e superficiais, a cidadania tem se esforçado em se ver pelos olhos da mídia, faltando apenas que o olhar da própria mídia lhe seja também mais recíproco. Como disse aqui mesmo o mestre Zuenir Ventura, a mídia ainda dá muita importância ao inquilino do palácio do Planalto, como se o poder se resumisse a ele, em detrimento dos demais poderes, sendo que o legislativo só aparece no noticiário policial e o judiciário quase nunca aparece. Resultado: fica reforçado nosso imaginário paternalista, caudilhista e sebastianista em detrimento da responsabilidade social da mídia na contribuição para a construção dos valores universais da democracia no imaginário cultural brasileiro. Fora a percepção geral de nossa vocação para o fracasso, de que nada vale a pena, reduzindo a vida política a tema de programa de humor e que traz como efeito colateral a desmobilização e omissão da cidadania. Mas a boa notícia é que nunca se lancetou tão prontamente os tumores pustulentos de nossa cultura política. Nunca ficou tão clara a grita geral por responsabilidade fiscal, civil, ambiental, social e sobretudo política. Tenho dito, inclusive, que se trata de um sintoma de desejar responder tão simplesmente à lei. Que estamos fartos da cultura de impunidade. Que desejamos desenvolver uma cultura de plena cidadania quando, no cotidiano da vida das calçadas, não toleramos mais que proprietários de cães não recolham seus excrementos do passeio público. E, na macro dimensão do país, também não queremos mais sujar os pés, não estamos mais dispostos a sustentar governos perdulários que não nos prestam contas claramente de como torram nossos impostos. Nem engolir mais a miséria de nossa desqualificada representação política. Se o cidadão eleitor do estado da Paraíba mandou pra casa um senador envolvido com a quadrilha dos sanguessugas, a decisão de impunidade reduzida a um pito escolar de seus coleguinhas pouco importa. Cedo ou tarde também serão julgados. Como foram quatorze dos dezenove mensaleiros pelo veredicto final dos cidadãos eleitores muito mais atentos às suas prerrogativas de cidadania. E nesse aspecto, a indignação e repúdio da opinião pública refletida na mídia é a grande conquista da cidadania neste ano que não passou em branco.

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