Banco Central e inflação

Julio Hegedus Netto

Mais uma semana intensa nos mercados. Nesta, repercutiu negativamente o imbróglio em torno da compra pela Petrobras da refinaria em Passadena, no Texas, e os valores nebulosos envolvidos. As coisas ainda pioraram depois que a presidente Dilma, então presidindo o Conselho da estatal, se omitiu, dizendo não saber sobre detalhes destas operações.

Além disto, especulações sobre uma pesquisa eleitoral do Ibope na quinta-feira, anunciando perda de votos da candidata Dilma e recuperação dos oposicionistas deram um alerta aos mercados. Dois outros fatos também foram destaques. Um foi a primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Fomc) da presidente eleita do Federal Reserve (FED, o Banco Central norte-americano), Janet Yellen; outro, o debate em torno da atuação do Banco Central e a vigilância sobre a inflação. Falemos sobre ambos.

A reunião do Fed, com Janet Yellen no comando, manteve a mesma estratégia de desmonte dos estímulos, reduzindo as compras de ativos em US$ 10 bilhões a cada reunião, agora a US$ 55 bilhões, com o juro entre zero e 0,25% anuais. A grande novidade, no entanto, foi a mudança no tom do comunicado, agora mais transparente sobre os próximos passos da autoridade monetária.

Janet disse que a política de retirada deve ocorrer entre setembro e outubro, e num “horizonte relevante”, possivelmente, num prazo de seis meses, elevar o juro até o fim do primeiro semestre de 2015. Com a economia crescendo entre 2,8% e 3,0% anuais, o desemprego a 6,6% da PEA e a inflação ainda baixa, em 12 meses, a 1,1%, ambos de janeiro, o Fed não veria necessidade, neste momento, de mudanças na estratégia atual. Mas e depois? Num mundo se reacomodando para um novo patamar de liquidez, solavancos poderiam ser inevitáveis.

O Fed havia anunciado antes uma política de orientação futura (foward guidance) para quando o gatilho da inflação chegasse a 2% e o desemprego recuasse a 6,5% da PEA. Agora, resolveu retirar o gatilho e passou considerar uma série de indicadores conjugados, como inflação, mercado de trabalho no longo prazo, produtividade, etc. Achamos que o juro deve ser ajustado gradualmente em 2015, fechando a 1% e próximo a 2% em 2016. Esta tendência de alta pode ser vista pelo comportamento dos rendimentos nos mercados de títulos: os de curto prazo sinalizam uma taxa de juros entre 3% e 3,5% e os de longo prazo, os T Bonds de 30 anos, algo próximo a 4% anuais. Estas taxas, embora altas, são mais baixas do que as praticadas nos mercados antes da crise de 2008.

Retornando ao Brasil, Alexandre Tombini, na CAE na semana passada, disse que “o país não estaria condenado a ter uma inflação acima da meta”. Desde a posse da Presidente Dilma, em 2011, a partir da virada da política econômica, a inflação se manteve acima de 4,5%, tendo chegado a 7,34% em meados de 2011. Neste início de 2014, as expectativas eram de uma inflação mais comportada, dada os alimentos mais baixos, mas os últimos acontecimentos desautorizam tal prognóstico.

Com as estiagens se alastrando ao longo deste verão, este item acabou duramente impactado, com destaque para verduras, hortaliças e frutas, sem esquecer algumas commodities, como o café, trigo e soja. Agora, com as pastagens secas, os preços das carnes estão sendo afetados. Os alimentos in natura, agora pressionados, podem devolver estas altas nos próximos meses, dado seu ciclo rápido de produção e escoamento, mas a carne tende à alta ao longo do ano, perigando na entressafra de setembro e outubro.

Uma série de ajustes pendentes deve estourar as projeções deste ano, como no caso dos transportes urbanos, a energia elétrica e gasolina

Mas os problemas não se resumem aos alimentos. Devemos lembrar também dos preços administrados, previstos na ata do Copom em 4,5%, depois de serem represados em 1% em 2013. Uma série de ajustes pendentes deve estourar as projeções deste ano, como no caso dos transportes urbanos, a energia elétrica e gasolina. Os reajustes dos transportes já ocorrem em alguns estados; a energia elétrica, prevista para ser reajustada em 7,5% neste ano, pela ata, deve ocorrer depois das eleições, se prolongando ao longo de 2015 (ou além); já a gasolina também deve ocorrer neste ano, depois das eleições, dada a perda de rentabilidade recente da Petrobras e o nível preocupante de produção e endividamento.

Serviços também é um item preocupante, se mantendo, em 12 meses, acima de 8%, mas devendo ser maior até junho, com a Copa do Mundo e o encarecimento de itens como almoço fora do domicílio, médicos, serviços diversos, etc.

E o que dizer de choques exógenos recorrentes, como no caso dos transportes aéreos em época de infraestrutura precária e Copa do Mundo? Neste mês de março, o IPCA-15, por exemplo, registrou 0,73%, com passagens aéreas reajustadas em 27,1%, depois de recuarem 20,3% em fevereiro.

Poderíamos também estar atentos ao câmbio, em torno de R$ 2,35 neste início de ano, mas devendo depreciar ainda mais nos próximos meses, dada a volatilidade das eleições e a retirada dos estímulos monetários do Fed, analisado acima. Esta consultoria, por ora, projeta uma taxa de câmbio em torno de R$ 2,55 ao fim deste ano.

Enfim, embora o Bacen e o mercado tenham deixado no ar a possibilidade de uma parada técnica no ajuste do juro para a reunião do Copom em abril (dias 1 e 2), não dá para ter certeza sobre esta possibilidade. A Lopes Filho projeta a taxa de juros de 2014 a 11% e em 2015 a 12%, mas o comportamento errático da inflação, a qualquer momento devendo romper o limite da meta nos 6,5%, coloca em risco estas projeções. Em complemento, para este ano estamos prevendo o IPCA a 6,2% e o IGP-M a 6,1%. Consideramos que o BACEN, por ter definido trabalhar sempre no limite superior da meta, entre 4,5% e 6,5% (com muitos achando o “centro real” da meta 5,5%), acaba se expondo em demasia às perigosas mudanças de patamar da inflação, geradas por choques inesperados. Aguardemos os próximos meses, mas tudo leva a crer que novas mudanças nas nossas projeções de inflação e taxa de juros serão necessárias.

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