Sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Band-aids, tuk tuks e Batman: buscam-se empreendedores

Às 4 da manhã de terça-feira eu me encontrava pensando a respeito do DemoDay do Startup Rio, que acontece hoje no Parque Lage.

O Startup Rio é um programa do governo do estado do Rio de Janeiro cujo objetivo é estimular o ecossistema de empreendedorismo de tecnologia. A visão de longo prazo é de transformar o Rio de Janeiro na capital de inovação da América Latina com representatividade semelhante a do Vale do Silício nos EUA.

Conheço o programa intimamente – eu o idealizei em sua versão “Herbert Richers”. O Startup Rio concede R$ 100 mil a empreendedores selecionados que estejam dispostos a montarem seus negócios tech no Rio. Além disso, o programa oferece aos empreendedores um espaço físico, no Catete, e acesso a conteúdo educacional vindo de experts do mercado.

A inspiração para o Startup Rio foi o programa chileno, Startup Chile, criado pelo ex-presidente liberal Sebastián Piñera. Um dia, Sebastián se deu conta de que, embora o Chile tivesse um ambiente muito favorável para negócios, ainda faltava o tesão por empreendedorismo no DNA chileno.

A esperança do ex-presidente ao desenvolver o Startup Chile era que o projeto atraísse empreendedores estrangeiros para sediar seus projetos no Chile. Ao importar empreendedores, o Piñera estaria trazendo um agente catalizador para que a cultura Chilena desse uma guinada.

Confesso que a minha primeira intenção, ao voluntariar meu tempo para a criação do Startup Rio, foi de impedir que empreendedores e engenheiros de computação brasileiros se candidatassem para o Startup Chile… Cansei de ver manadas de alunos brilhantes saindo de núcleos de pesquisa de excelência como PUC, UFRJ e UFF para seguir o caminho de Piñera.

Sofri ao observar o êxodo do capital intelectual do pólo carioca. A brilhante sacada de Sebasián despertou uma ansiedade em mim, mas não fui a única a quem ele conseguiu provocar. O Startup Chile iniciou uma tsunami de projetos semelhantes pelos quatro cantos do mundo… De Singapura, a Londres, a Nova Iorque – muitos governos criaram suas próprias versões do mesmo projeto em uma tentativa de atrair empreendedores. Afinal de contas, o empreendedorismo é o principal motor de uma economia – quem consegue criar um ambiente em que jovens brilhantes podem prosperar tem um grande ativo gerador de empregos e estímulo econômico.

O que me leva a compartilhar reflexões a respeito do ecossistema empreendedor no Brasil… Uma pergunta que recebo com frequência de empreendedores estrangeiros é: “como é empreender no Brasil?”. Respondo com uma simples analogia: “empreender no Brasil é como fazer um rali de tuk tuk por Tamilnadu (região mais pobre da Índia): beiramos a morte ao menos 10 vezes ao dia, sua vida se torna intimamente vulnerável a irracionalidade de terceiros que, ora se lançam na frente do seu tuk tuk, ora usam o mesmo como alvo de amortecimento para seus caminhões sem freio. Não há regras de trânsito, não há mapa… sequer há estradas! No final da jornada, a vitória é contabilizada pela sobrevivência de mais um dia.” Faço essa analogia, pois sobrevivi a esse rali – eu sei. Em resumo: ambas as experiências (o rali e o empreendedorismo brasileiro) fizeram de uma ex-ateia uma pessoa um tanto espiritual…

Afinal de contas, o empreendedorismo é o principal motor de uma economia – quem consegue criar um ambiente em que jovens brilhantes podem prosperar tem um grande ativo gerador de empregos e estímulo econômico

Dada a hostilidade do ambiente empreendedor no Brasil, eu seria leviana ao acreditar que o Startup Rio resolve as questões do país. Nesse contexto o programa torna-se apenas um band-aid contra uma hemorragia aguda.

De acordo com o National Venture Capital Association, empresas com características de startup representam 22% do PIB Americano e 11% dos empregos no setor privado. Sendo assim, abrigar um hub tecnológico é de interesse estratégico para qualquer estado e país.

Para conseguirmos atingir números semelhantes aos dos EUA, precisaremos mais do que um simples band-aid; precisaremos fazer mudanças estruturais no ambiente de negócios no Brasil. Acredito que seja possível conquistarmos mudanças concretas, por etapas.

O primeiro passo é o reconhecimento do empreendedorismo como a chave da criação de valor em uma cadeia produtiva econômica.

Ao lutar para executar um projeto como o Startup Rio, o governo do Estado do Rio de Janeiro deu indícios de ter esse entendimento. Sigo no conselho e sei o quanto foi difícil superar obstáculos para que esse projeto seja concretizado.

O segundo passo, e mais importante, é conseguirmos, como uma comunidade, transformar um programa em uma plataforma para mudanças estruturais.

Reconheço a boa disposição do governo do estado do Rio de Janeiro em dialogar a respeito do tema. Inseriram na pauta do Demo Day o painel de título: “O papel do Estado no empreendedorismo digital”, o que é um bom começo de conversa.

Sinto muito não termos empreendedores nem fundos de Venture Capital participando deste painel – tenho certeza de que teriam bastante a complementar ao encontro.

Acredito veementemente que o impacto do Startup Rio será multiplicado quando conseguirmos emplacar vitórias que nos aproximem do contexto do dinamismo do empreendedorismo global, onde se praticam duas melhores práticas:

(1) contratos de trabalho entre partes voluntárias e
(2) impostos centralizados a níveis estaduais, apenas (leia-se cargas federais mínimas)

Trata-se de características básicas e fundamentais para que o mercado funcione e, quem sabe, talvez até prospere (sejamos audaciosos em nossas pretensões!).

Uma conquista é a da coragem que os governantes envolvidos tem tido em mergulhar em um projeto ambicioso, inovador, e de difícil execução. Espero que os diálogos desafiadores já iniciados entre partes que não conversam deem frutos a projetos mais grandiosos. Esses projetos demandarão ainda mais dedicação e coragem para serem executados.

Hoje, quando os empreendedores apresentarem suas dez empresas ao público no Demo Day do Startup Rio, devemos lembrar que eles não serão os únicos a serem julgados. A capacidade do Estado de aproveitar a oportunidade e liderar a transformação do Startup Rio em um projeto bacana e bem feito para 150 pessoas em uma plataforma para mudanças estruturais também estará em jogo.

Eu acredito e aposto que isso é possível: conheço a equipe, que é dedicada e está fazendo um trabalho sério.

O Bat Sinal foi lançado, the stakes are high.

Aguardo o contato de colegas empreendedores com interesse e conhecimento de causa que queiram colaborar diante dos desafios e com a oportunidade de transformarmos o projeto do Startup Rio em uma plataforma para mudanças estruturais. Está na hora de incentivar o empreendedorismo de forma mais robusta e duradoura. Para quem quiser colaborar (ou criticar) meu email é p.startuprio@gmail.com

Uma coisa eu garanto a todos: como em qualquer corrida de tuk tuk, sobreviver não será fácil, mas a jornada será incrível e a conquista apagará as cicatrizes.

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