A situação na base aliada governista está tão confusa que até mesmo a disputa por uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU) pode provocar rachas incontornáveis. Com a aposentadoria de Ubiratan Aguiar, caberá à Câmara indicar seu substituto, e interessa ao governo trocar um ministro “tucano” por um da base aliada.

Especialmente quando diversas obras nos próximos anos, de preparação para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas, estarão sob o escrutínio daquele órgão, que auxilia o Congresso na fiscalização da União e de organismos da administração direta e indireta.

O ex-presidente Lula volta e meia atacava as decisões do TCU, culpando-as pelos atrasos de obras de seu governo.

Por isso, ter ministros ligados à sua base é interesse prioritário do governo, e nada menos que dez candidatos já se apresentaram, mas, na verdade, há três candidatos fortes na disputa: Ana Arraes (PSB), mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos; Aldo Rebelo (PCdoB); e Jovair Arantes, líder do PTB na Câmara.

Ao mesmo tempo em que as disputas de bastidores pela vaga no TCU deixam pendências pelo caminho, uma semana depois de o PR anunciar independência em relação ao governo, mas receber o apelo da ministra Ideli Salvatti para que retornasse à base, o líder do partido na Câmara, Lincoln Portela, assinou o requerimento para a criação da CPMI da Corrupção, para investigar irregularidades na administração federal.

Entre elas as denúncias que atingiram o Ministério dos Transportes, que historicamente era dominado pelo PR nos governos petistas, dando início à “faxina ética” que tanto alvoroço provoca na base aliada do governo.

A CPI mista tem 119 assinaturas de deputados, das 171 necessárias, e 21 adesões de senadores, das 27 necessárias, e a oposição conta com os potenciais dissidentes governistas, descontentes com as investigações do governo, para alcançar o quórum mais uma vez.

As cicatrizes que o processo de demissões em massa nos ministérios controlados por políticos da base aliada vem provocando podem surgir, também, dessa disputa para a vaga do TCU.

O governador Eduardo Campos, chefe do PSB, um dos principais aliados do governo, levou sua mãe, a deputada Ana Arraes, para uma conversa com a presidente Dilma em busca de seu apoio para a vaga.

Mas o que parecia acertado agora ameaça não se concretizar, a se confirmar o apoio da presidente ao ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo, que apresentou sua candidatura só recentemente, quando vários candidatos já trabalhavam em busca de votos.

O que leva muitos a crer que ele só se lançou com a garantia de que o Palácio do Planalto o apoiaria. Mas, na articulação de bastidores, o candidato que parece mais forte é o líder do PTB Jovair Arantes, uma espécie de candidato do baixo clero da Câmara, mas que tem bom trânsito nas altas rodas políticas.

Sua força no baixo clero é correspondente ao empenho para o pagamento de emendas parlamentares, e atualmente ele articula para que as verbas para pequenos municípios sejam liberadas com prioridade pelos órgãos federais, o que vai ao encontro do empenho da maioria dos deputados.

A candidatura da mãe do governador Eduardo Campos, sem o apoio de dentro do governo que ele esperava, está buscando apoios na oposição, e aí é que começa a potencial crise política com um dos mais importantes sustentáculos governistas.

Por meio do senador Aécio Neves, conseguiu obter a promessa de apoio do PSDB e do DEM, e com isso o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, que estava apoiando Jovair Arantes, deve ficar pelo menos neutro.

Há também dentro do TCU apoios importantes para Ana Arraes, como os ministros pernambucanos José Múcio, do PTB, mas com raízes no PFL, e José Jorge, do DEM. E até mesmo o terceiro-secretário da Câmara, Inocêncio Oliveira, do PR, mas, sobretudo de Pernambuco, está apoiando sua candidatura.

Mais uma vez o ex-presidente Lula entra nos bastidores dessa história para apagar um possível incêndio. Está deixando saber que apoia a candidatura de Ana Arraes, mesmo que não tenha força na Câmara para decidir esse tipo de eleição.

É um gesto político para satisfazer Eduardo Campos, mas não garante nada.

Lula tentou eleger o deputado Paulo Delgado, do PT mineiro, mas perdeu para o candidato do PFL Aroldo Cedraz. Na outra eleição em que apoiou um petista, José Pimentel – esse mesmo que teve a coragem de ir ao plenário da Câmara para dizer que a faxina ética do governo pode nos levar de volta aos “anos de chumbo” -, foi derrotado por um deputado da própria base governista, Augusto Nardes, do PP.

A disputa, portanto, depende muito menos do apoio do ocupante eventual do Palácio do Planalto do que do prestígio que o candidato tenha no plenário da Câmara.

Desse ponto de vista, Jovair Arantes é o favorito, mas Aldo Rebelo tem bastante chance pela rede de relacionamentos que montou quando presidiu a Câmara.

Mas a deputada Ana Arraes pode surpreender pela ação determinada que seu filho desenvolve nos bastidores. Mesmo que não se eleja, no entanto, terá provocado uma cisão na base governista que pode ser importante na montagem de acordos políticos mais adiante, especialmente na sucessão presidencial.

Se o Planalto não for muito cuidadoso, e não está sendo ao deixar transparecer que seu candidato “in pectoris” é Aldo Rebelo, o governador Eduardo Campos pode ficar tentado a dar o troco.

Como se comenta nos corredores da Câmara, ninguém esquece o que se faz com uma mãe, seja de bom ou de ruim.

O título da coluna é uma singela homenagem aos 30 anos da morte de Glauber Rocha, que tão bem retratou em seus filmes os vícios deste incrível país em que vivemos.

Fonte: O Globo, 24/08/2011

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