O já longo período eleitoral terminou em temperatura bastante elevada, ofuscando algumas questões centrais.

A rigor, não foi apresentado por nenhum dos candidatos um conjunto sério de propostas que diga respeito ao nosso futuro. Chegamos à esdrúxula situação em que a candidata vitoriosa apresentou como Plano de Governo uma visão sucinta do programa partidário, impregnado do viés dogmático do Plano Nacional de Direitos Humanos 3, logo retirado para modificações. No segundo turno, tivemos apenas propostas genéricas, onde virtualmente tudo poderia ser incluído. O candidato oposicionista nem isto fez ao não apresentar Plano de Governo, salvo o cumprimento de um procedimento burocrático no Tribunal Superior Eleitoral via um recorte de dois de seus discursos. A pergunta que se impõe é: será que o país não merecia ser discutido? Será que somos cidadãos considerados incapazes de apreender e discutir ideias e concepções? Somos apenas objetos de marqueteiros? Numa campanha carente de ideias, ganhou força novamente o que já se torna um mantra, o de se seguir um pseudoprincípio das campanhas eleitorais, segundo o qual “quem bate perde!”.

Tal como é apresentada, essa ideia ganha o estatuto de uma verdade a priori, válida independentemente de qualquer experiência. O mais curioso é que José Serra a seguiu em todo o primeiro turno e início do segundo, colocandose, desta maneira, numa posição de nítida desvantagem. Marina Silva, com seu jeito calmo e cordato, afastouse desse “princípio”, cobrando de Dilma Rousseff o escândalo de tráfico de influência de Erenice Guerra na Casa Civil. Terminou, ela, viabilizando o segundo turno.

Dilma Rousseff e sua equipe, desorientados com esse resultado, tiveram, contudo, uma visão mais realista da situação. Certamente auxiliada por pesquisas internas que davam a diminuição de sua vantagem em relação a José Serra, a candidata petista mudou de atitude e passou a “bater” em seu adversário, e “levou!”. Não seguiu o mantra que aparentemente acatava.

Ou melhor, em campanhas eleitorais o que conta são as verdades a posteriori, que dependem de uma reflexão ancorada na experiência. Em alguns momentos convém não bater, em outros é mais do que conveniente. A candidatura Serra não soube avaliar esse “timing” e terminou vítima de si mesma e da bem conduzida campanha de sua adversária.

Intervém, aqui, um outro fator da maior relevância, o de que o “ataque” de Dilma Rousseff tenha se aproveitado de um velho preconceito a respeito das privatizações. Chega a ser incompreensível que, depois das derrotas de 2002 e 2006, os tucanos não tenham se preparado para esse debate de ideias. Na verdade, mostram-se envergonhados do que fizeram quando governo. As privatizações são um sucesso estrondoso, sobretudo em áreas de telecomunicações, siderurgia, na Embraer, na Vale, entre outras.

O país mudou e para melhor. Algumas dessas empresas tornaram-se players internacionais, sendo motivo de orgulho para o país. Pagam altos impostos, geram renda para si e seus acionistas, empregam e dão muito boas condições de vida para seus trabalhadores.

Argumentos não faltam.

O que fez José Serra confrontado ao problema? Acusou Dilma de “privatista”! Ou, ainda, quis se mostrar tão ou mais estatizante do que ela. Recusouse a um verdadeiro debate, foi incapaz de mostrar a herança bendita legada por Fernando Henrique. Caiu em duas armadilhas: a do PT, entrando em seu jogo, e a de suas pesquisas “qualis”, que partiram da ideia de que o cidadão brasileiro tem uma concepção negativa das privatizações do governo Fernando Henrique.

Acontece que as pesquisas “qualis”, se bem feitas, retratam somente um momento, uma foto fixa de um estado de espírito. Ora, esse estado de espírito foi formado ao longo desses oito anos de governo Lula e mesmo antes, pois no período anterior elas foram consideradas como um mal necessário, algo que deveria ser somente tolerado. O governo petista aproveitouse dessa “vergonha” e fez um longo trabalho de formação da opinião pública, cujo “retrato final” foi oferecido pelas pesquisas. A verdadeira política se faz nesse longo processo de formação da opinião pública, e não apenas no calor de uma campanha eleitoral, onde ideias já se encontram cristalizadas. Se os tucanos em todos esses anos não souberam defender o que fizeram, fica, de fato, difícil em poucos meses e semanas reverter uma situação desse tipo.

Neste deserto de ideias, sobra como alternativa nos apegarmos ao discurso da presidente eleita e no que resta de propostas das oposições.

Dilma Rousseff, em seu discurso de vitória e em manifestações posteriores, foi extremamente sensata, tendo sabido captar a importância do momento.

Mostrou-se à altura deste, com um discurso de união nacional, que poderia ser subscrito pelos oposicionistas.

Fez uma defesa veemente da democracia representativa, da liberdade de imprensa e dos meios de comunicação, do estado de direito, posicionando-se, mesmo, contrária às invasões de prédios públicos e de propriedades privadas pelo MST. Sinalizou também um afastamento em relação ao Irã, por seus atos de barbárie em relação às mulheres. Em algumas dessas questões, demarcouse de seu mentor. Convém, porém, fazer um acompanhamento de seus passos, para que possamos melhor avaliar se essas ideias vieram para ficar ou não. Seria altamente promissor saber que a nova presidente não é uma “metamorfose ambulante!”.

Os tucanos, perdidos, estão na obrigação de se reinventar. Deverão fazer uma avaliação rigorosa de três fracassos sucessivos, em 2002, 2006 e 2010.

Deverão apresentar ideias e concepções que deixem claro ao eleitor brasileiro o que significa o seu nome: “socialdemocracia”. Deverão, enfim, fazer uma defesa do seu próprio legado e, em particular, enfrentar a questão das “privatizações” e, com ela, as das reformas tributária, previdenciária e política.

Não podem se omitir. Se não o fizerem, estarão destinados novamente a um fracasso em 2014.

Fonte: O Globo, 08/11/10

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