Domingo, 4 de dezembro de 2016
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Blindando o futuro e reparando o passado 3

As áreas de exploração e produção (E&P) e de abastecimento da Petrobras foram o foco de artigos anteriores da série “Blindando o futuro e reparando o passado”. Agora, tratarei das áreas de gás & energia (G&E) e da internacional, que também sofreram expressivos prejuízos com o intervencionismo, o populismo e o oportunismo político do PT.

A área de G&E recebeu investimentos de US$ 18,8 bilhões de 2009 a 2014 e, no ano de 2014, apresentou prejuízo operacional de R$ 1,6 bilhão, a despeito de possuir ativos de R$ 58,8 bilhões. Esse prejuízo foi causado pelo motivo de sempre: falta de governança na Petrobras e uso da empresa como solução para problemas do setor elétrico.

Entre as interferências do governo na gestão da área de G&E, destaco os seguintes eventos: 1) concordância com o aumento de preços do gás natural da Bolívia; 2) construção de terminais de Gás Natural Liquefeito (GNL), visando a garantir o suprimento de gás natural para as termoelétricas; 3) participação no 13º Leilão de Energia em 2014, tendo aceitado preço substancialmente inferior ao preço de energia no mercado livre; 4) fornecimento de combustíveis para termoelétricas com aceitação de elevada inadimplência – em 31 de dezembro de 2014, a Petrobras possuía R$ 12,8 bilhões de recebíveis do setor elétrico; e 5) assinatura de contrato de parcelamento de dívidas do Sistema Eletrobras com a Petrobras, no valor de R$ 8,6 bilhões, a ser pago ao longo de dez anos.

Olhando para o futuro, é importante a Petrobras focar sua atuação no seu negócio principal, que é explorar e produzir petróleo e gás natural

A área internacional apresentou prejuízo operacional de R$ 1,7 bilhão em 2014. Excluindo o impacto positivo da venda de ativos, o prejuízo operacional em 2014 foi de R$ 5,5 bilhões. Esse expressivo prejuízo foi causado por impairment de ativos, em parte movido pela queda no preço internacional de petróleo, além de provisões de perda de investimentos na Venezuela, no Equador e na África.

O ativo da área internacional sofreu redução de R$ 4 bilhões de dezembro de 2008 a dezembro de 2014, apesar de ter recebido investimentos de US$ 15,2 bilhões no mesmo período. Parte dessa redução pode ser explicada pela venda de ativos de E&P, principalmente na África e no Peru, e parte está associada ao impairment de ativos em razão da queda do preço do petróleo. Mas a parte relevante da redução se deveu à má gestão (Pasadena é o caso mais crítico) e ao uso da Petrobras como instrumento de política internacional.

O histórico de perdas da área internacional não se restringe a esse período. Vale relembrar que, no primeiro semestre de 2006, os governos da Venezuela e da Bolívia estatizaram todos os ativos do setor de petróleo em seus respectivos países. A Petrobras negociou míseros US$ 88,5 milhões e US$ 122 milhões, respectivamente, como reparação das estatizações. No caso venezuelano, os US$ 88,5 milhões nem sequer foram pagos.

Olhando para o futuro, é importante a Petrobras focar sua atuação no seu negócio principal, que é explorar e produzir petróleo e gás natural, com foco no desenvolvimento e na monetização das suas relevantes reservas no Brasil. O modelo Petrobras atuando como “um Estado dentro do Estado brasileiro” serviu somente aos interesses políticos do governo federal e foi muito nocivo para a empresa.

A Petrobras deveria vender suas participações nas termoelétricas, na empresa transportadora TAG, adotando um modelo de venda de controle da operação e evitando o erro recente ocorrido na venda das distribuidoras de gás. Além disso, deveria admitir o acesso aos terminais de GNL, permitindo a importação pelas termoelétricas e distribuidoras.

Em termos de operação internacional, a Petrobras atua em 16 países, o que faz pouco sentido vis-à-vis as oportunidades de investimentos no Brasil e os respectivos desafios de recursos financeiros e de gestão. É necessário reduzir a operação internacional da Petrobras, mas a prioridade de venda deveria ser dada aos ativos como os de refino e distribuição, e não aos ativos de exploração e produção de petróleo, que são o negócio principal da empresa e, portanto, mais atrativos.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 21/11/2015

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