Brasil, a arte de construir o edifício de cima para baixo

Há situações em que o Brasil torna-se insuperável na arte de fazer as coisas de trás para frente ou construir o edifício do último andar para o térreo e as fundações. Vejam o caso da Copa do Mundo: primeiro, vai lá e, entre tapas e beijos, consegue o privilégio de sediar os jogos de futebol mais importantes do mundo, em 2014; só depois é que vai conferir se tem ou não condições objetivas de realizá-los. Nada mais natural que o assunto tenha derivado para esse imbróglio jurídico que ameaça até mesmo a sobrevivência da lei de licitações. Alguém já pensou na vergonha que todos passaremos se o país for obrigado a abrir mão do privilégio por atrasos nas obras de infraestrutura ?
Agora mesmo, presenciamos mais um caso – rumoroso – desse jeito estúpido da “engenharia” brasileira em tocar suas grandes obras. Refiro-me à turbulência que já sacode a fusão da Sadia com a Perdigão para formação da Brasil Foods (BRF) com as interferências do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) após dois anos das negociações entre as duas empresas. É como se o país fosse uma entidade que apreciasse muito observar as peripécias de seus empreendedores em driblar os percalços que ela mesma coloca em seu caminho. Puro sadismo, quando se descobre que a ameaça que só agora recai sobre a fusão fez com que a nova companhia perdesse nada menos do que R$ 6,3 bilhões de valor de mercado.
O certo é que o Brasil poderia estar num estágio de desenvolvimento muito maior não fosse a irracionalidade que se impõe a seus passos para travar a velocidade em direção ao futuro. Certas áreas governamentais não conseguem enxergar os caminhos da modernidade e da lógica nem mesmo nas circunstâncias em que estes são apontados com clareza pelos próprios empreendedores.
O caso da BRF é muito parecido com o caso da Nestlé na compra da capixaba Garoto. Primeiro, o governo assiste, impassível, à aquisição feita através de negociações transparentes. Anos depois, surge o Cade a querer rever o negócio e a impor novas exigências à transação. Ivan Zurita, presidente da Nestlé, cinco anos após a compra, ainda tinha de recorrer à mídia para explicar: “No momento em que entramos com a intenção de comprar a Garoto, a Nestlé dos Estados Unidos tentou aprovar a aquisição da Dreyer’s, indústria de sorvetes. Tiveram o mesmo problema que este nosso na primeira análise. Só que, pela lei americana, você discute antes o investimento que vai fazer. Você discute publicamente as alternativas e sai da mesa com a solução. Ou sim ou não. No Brasil, não. No Brasil, você compra, paga, para depois aprovar”.
Ao falar dos resultados obtidos pela Garoto em cinco anos após a compra pela Nestlé, o próprio Ivan Zurita nos mostrou, ainda em 2007, o quanto o Brasil tem perdido com essa sua mania de fazer as coisas de trás para frente: “Ao adquirimos a Garoto, a empresa faturava R$ 530 milhões; no ano passado, faturou R$ 1,2 bilhão. Era uma empresa que perdia dinheiro e transformou-se numa empresa que tem resultado operacional de R$ 160 milhões. Demos mais 600 empregos e distribuímos mais de R$ 16 milhões de lucro entre os funcionários… Eles não tinham repartição de lucro porque não tinham lucro”.
Desnecessário dizer mais que isto, certo ?

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