Brasil, ascensão ou declínio?

O grande entusiasmo com que o mundo saudava a economia brasileira há apenas quatro anos fez o cartunista Ziraldo decretar: junto com o nome “Brasil” deve vir um ponto de exclamação. Quando alguém no exterior pergunta de onde você é – e você responde que é brasileiro – seu interlocutor exclama: “Brasil!”.

Essa verdadeira “Brasilmania” que até pouco tempo rodou o mundo foi alimentada por várias fontes. Pioneirismo em biocombustíveis e perspectivas do país tornar-se superpotência energética com o pré-sal; gestões macroeconômicas responsáveis; políticas de renda mínima que melhoraram a vida de milhões de brasileiros; agronegócio pujante; membro da elite dos mercados emergentes do século 21 – os Brics; a escalada do PIB entre as maiores economias do mundo (turbinada pelo câmbio superapreciado), e a travessia sem solavancos nas crises gêmeas de 2008 e 2011.

Tudo apontava para uma potência em irresistível ascensão. Tal euforia foi captada pela mídia internacional. Uma capa publicada pela revista ‘The Economist’ em novembro de 2009 mostrava a estátua do Cristo Redentor decolando do Corcovado como um foguete. O crescimento econômico de 7,5% do PIB em 2010 parecia confirmar os prognósticos mais otimistas.

Nesse último quadriênio, contudo, as percepções sobre o Brasil mudaram radicalmente

Nesse último quadriênio, contudo, as percepções sobre o Brasil mudaram radicalmente. O crescimento médio do país durante a presidência de Dilma Rousseff é o mais baixo do último quarto de século. Tal subdesempenho revela as limitações do padrão de economia política adotado no país desde que o PT chegou ao Palácio do Planalto em 2003. A marcada mudança de humores também foi simbolizada numa capa de ‘The Economist’ em setembro de 2013. O Cristo Redentor como “foguete” parecia em trajetória espiral completamente fora de controle. Perdíamos o ponto de exclamação . Ganhávamos uma interrogação. A percepção mudara de “Brasil!” para “Brasil?”.

O que aconteceu? O que deu errado? Qual o caminho adiante para nosso país? Algumas das respostas podem ser encontradas no livro Brasil: a Turbulenta Ascensão de um País (Campus/Elsevier, 320 páginas, R$ 80,90), do jornalista Michael Reid, ex-editor de Américas da ‘The Economist’ e hoje seu colunista de América Latina. Vamos debater esse tema com o autor, e também com o economista Aod Cunha, em evento na Fiergs na próxima quinta, 9 de abril.

O livro lança luz sobre um país que oscila entre grande potencial e recorrente mau desempenho. Nesse olhar, vai além da mera análise jornalística ao inserir a economia política brasileira no marco de uma história concisa e útil do país. Reid não só se vale de clássicos da sociologia brasileira, como Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Hollanda, ao examinar o legado português no Brasil. Examina também “instituições” mais contemporâneas que ajudam a “unificar” o Brasil, como as telenovelas que atingem público de até 80 milhões de pessoas a cada noite.

O resultado é um relato rico e detalhado do Brasil e do cabo de guerra que trava entre esperança e decepção. Em seu livro, Reid critica severamente a intervenção governamental excessiva, sublinhando que o estado ‘nacional-desenvolvimentista” fincou raízes profundas em nossa consciência coletiva. O país teria pouco apetite para reformas estruturais, o que leva o autor a concluir que o Brasil tem “alergia ao liberalismo”.

Reid caracteriza a atual política industrial e comercial do Brasil como “rota para o capitalismo de Estado” em que o país enveredou durante o segundo mandato de Lula. Tudo isso resulta num fraco desempenho que o autor chama de “as decepções de Dilma”. Reid indica que a sucessora de Lula “tinha estabelecido como um de seus objetivos a melhoria dos serviços públicos, mas tem feito muito pouco para conseguir isso”.

O livro de Michael Reid nos coloca diante de uma questão fundamental: o que o futuro do Brasil reserva: inércia ou mudança? Será que o país permanecerá, como sugere o autor, “um Leviatã sem reformas?” Nesse caso, a recente capa de uma ‘The Economist’ de fevereiro deste ano será perpetuada: o Brasil “no atoleiro”.

Para aqueles que acreditam que o Brasil fez grandes progressos nos anos Lula-Dilma, o futuro deve comportar mais “Estado” e menos “capitalismo”. Isso só pode fazer sentido se os setores mais produtivos da economia brasileira continuarem a gerar recursos excedentes para compensar ineficiências observadas no âmbito estatal. Tal cenário, segundo Reid, manteria o Brasil muito aquém do seu potencial, que clama por uma agenda de reformas nos âmbitos trabalhista, tributário e da previdência social.

A definição do futuro, no entanto, não é um jogo decidido. No limite, se as lideranças brasileiras mostrarem-se dispostas à ousadia da modernização institucional, aquele entusiasmante ponto de exclamação após “Brasil” pode voltar com força – e o país ocuparia seu lugar de direito dentre as nações mais dinâmicas do século 21.

A Fiergs realiza no dia 9 de abril o workshop ‘Brasil: Desafios e Oportunidades Frente à Nova Conjuntura’, às 15h, na sede da entidade. Participam do evento o jornalista Michael Reid, o economista e cientista político Marcos Troyjo e o economista Aod Cunha.

Fonte: Zero Hora, 5/4/2015

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