Conversa de botequim

Em 1935, Noel Rosa e Vadico inventam um extraordinário samba intitulado “Conversa de botequim”, cuja letra descreve uma série de solicitações — uma “conversa” — entre um cliente demandante e um garçom obediente. Entre o espirituoso e o irônico, a letra assinala os pedidos cada vez mais abusados do cliente supostamente superior a um obediente garçom.

Todos os abusos se passam como e são englobado pela chave do “faça-me o favor” — um forte marcador cultural —, que torna o pedido irrecusável porque, mesmo quando é absurdo, ele foi feito “educadamente” — enclausurado pelo favor! Faça-me o favor de ficar imóvel porque vou assaltá-lo, diria um bandido brasileiro na sua brasileiríssima cordialidade. Muitos já passaram por esse terrível brasileirismo.

Hoje, quando temos uma disputa surreal entre os poderes da República sobre quem deve legislar sobre o aborto e a corrupção, com o bom senso sendo trocado pela infantilidade do “vamos largar tudo” ou do “vamos ganhar tudo”, vale lembrar esse estilo autoritário que um samba extraordinário traz à luz de modo tão patente.

Durante muito tempo, eu me interessei pelo que a música popular dizia do Brasil, e este samba que era tocado pelo piano de mamãe me encantava pela candura com a qual ele exibia o nosso viés hierárquico e autoritário camuflado por harmonias e rimas que fazem com que as ordens em sucessão e os pedidos abusivos do “freguês” alcancem o plano da comédia, permitindo sua audição pelo ouvinte e garçom sem questionamentos.

Se repararmos outros estilos em outros mundos, vamos encontrar equações semelhantes. Na música popular americana, as canções de amor cantam uma sensualidade e uma sexualidade que contrastam com o puritanismo rotineiro. Ninguém diria “vamos nos apaixonar” (“let’s fall in love”), “faz, faz, faz o que você acabou de fazer” (“do, do, do what you’ve done before”) ou “não negue, satisfaça-me mais uma vez” (“don’t deny me, satisfy me one more time”) — exceto cantando.

O que não se pode falar, canta-se. O que se pode cantar é coagido pela correção ou tomado como imoral, conforme revela o conjunto de um gênero musical que eu analisei no meu livro “Conta de mentiroso” — o chamado “gênero musical carnavalesco”, em que sugestões sexuais explícitas passam como brincadeiras típicas do carnaval como “mamãe, eu quero mamar”, “sassassaricando” e tantas outras.

O samba de Noel e Vadico descreve uma sucessão imperativa de pedidos que vão daquilo que um botequim serve rotineiramente: média com um pão e manteiga, mas o que se deseja é uma média especial rapidamente trazida, que não seja requentada e que o pão venha com manteiga à beça acompanhada de um guardanapo e um copo d’água bem gelada!

Segue-se uma torrente de demandas: fechar a porta da direita, perguntar o resultado do futebol e se por um acaso o serviçal ficar limpando a mesa, ameaça-se não pagar a despesa. Ato contínuo, o freguês consciente de sua autoridade exige caneta, tinteiro, envelope e cartão, objetos “cultos” significativos em 1935, quando o Brasil flutuava mais em analfabetismo do que na extraordinária má-fé criminosa de hoje em dia.

Na sequência, cobram-se palitos, cigarro, revistas, isqueiro e cinzeiro, além de um telefonema ao Seu Osório exigindo um guarda-chuva para o escritório.

Todas essas ordens são, porém, um preâmbulo para um empréstimo de dinheiro, pois o cliente gastou o seu no bicheiro (hoje sabemos que a grana vai para joias, lanchas, sítios etc.). Finalizando, e fechando com chave mestra o figurino autoritário, solicita-se ao gerente do botequim que pendure as despesas no cabide ali em frente!

Tal e qual o “governo” pendurou em todos nós os gastos com as roubalheiras do petrolão, as incompetências com a economia e o gigantesco aparelhamento do Estado. Hoje, assistimos a demandas contraditórias e ideologicamente racionalizadas, como o esfaqueamento do pacote anticorrupção pelo Congresso — enquanto chorávamos todos a tragédia de um formidável time de futebol desaparecido num desastre de avião igualmente suspeito de incompetências.

O que aconteceria se nesse botequim que alguns querem transformar o Brasil outros fregueses ordenassem outras coisas? Como a extinção da Lava-Jato, a prisão por abuso de autoridade dos promotores, delegados e agentes da Polícia Federal e se condenasse o juiz Moro ao exílio?

Afinal, o que se vê hoje no botequim de Noel e Vadico é o povo exigindo mais igualdade e leis anticorrupção. E como o botequim começou a ser limpo e lavado, todos querem ver o fim do filme.

Agora são as ruas que pedem: façam-me o favor de trazer a decência pública!

PS: Expresso a minha tristeza pela morte do Ferreira Gullar.

Fonte: “O Globo”, 7 de dezembro de 2016.

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