Brasil e o iOS da ordem global

O ecossistema da internet tem se parametrizado pela sucessão de softwares que permitem tarefas cada vez mais complexas. Apple e Google travam acirrada competição, respectivamente com iOS e Android, para que o mundo inteiro se filie a seus sistemas operacionais.

É corrida tão acelerada que novos ajustes chegam no intervalo de semanas. Aplicativos, maneira pela qual os agentes oferecem seus produtos, têm atualização diária.

O Brasil opera em substituição de importações, terceiro-mundismo, ubiquidade do Estado

Tal ambiente de intensa competição é boa referência com o que acontece com a ordem global.

O historiador Niall Ferguson sugere em seu livro “Civilização” que o Ocidente valeu-se de seis “aplicativos” para ascender: competição, revolução científica, direito à propriedade, medicina moderna, sociedade de consumo e ética do trabalho.

Assim, a busca por poder e prosperidade é imutável, mas o sistema operacional em que cada país realiza seus movimentos atualiza-se constantemente.

Nas tecnologias da informação, alguns dispositivos são incompatíveis com recorrentes atualizações. Tornam-se obsoletos. No âmbito internacional, algumas nações não se adaptam a novos contornos da ordem global. Comem poeira.

Durante muito tempo o sistema operacional da ordem global foi a Guerra Fria. Permitia pouca mobilidade para um país como o Brasil ante a lógica bipolar entre democracias liberais e comunismo geopolítico. É como se o mundo rodasse em versões rudimentares de COBOL ou BASIC.

Já o período de globalização profunda que se seguiu à Queda do Muro de Berlim criou para potências emergentes oportunidades semelhantes às do sistema Windows. A plataforma permitia operar em várias “janelas” simultâneas.

Países aprofundaram-se em integração regional, como a União Europeia e o Tratado de Maastricht, ou o advento de Mercosul e Nafta. Alguns utilizaram a liquidez internacional para equacionar dívidas externas. Todos tiveram de ajustar-se a uma China de grande relevo.

A versão da ordem global que se implementa agora parece pouco compatível com os aplicativos que o Brasil vem adotando.

O mundo sinaliza com cadeias de produção global, acordos plutilaterais de comércio e investimento, diplomacia pragmática e readequação funcional do Estado para a indução e regulamentação.

O Brasil opera em substituição de importações, terceiro-mundismo, ubiquidade do Estado. Ícones de uma linguagem operacional intempestiva e facilmente contaminada por vírus como compadrio e corrupção.

Nossa política de conteúdo local e comércio exterior alimenta-se de pressupostos cepalinos dos 1960. Muitas de nossas ações de política externa repisam descolonização, antiamericanismo e solidariedade entre nações socialistas típicos dos anos 70.

Hoje, smartphones medem-se pela capacidade de instrumentalizar inúmeras possibilidades da transição do mundo das “redes” para o universo da computação em nuvem.

As “smartnations” serão aquelas que abandonarem a ferramenta obsoleta dos projetos autárquicos em nome da interdependência com a “nuvem” global.

Fonte: Folha de S.Paulo, 06/02/2015

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