O Brasil na contramão

Nas últimas semanas, acompanhamos no noticiário nacional uma onda de protestos de caminhoneiros, que ao bloquear estradas causaram desabastecimentos e paralisações de fábricas, além de prejudicar o escoamento da safra. Os caminhoneiros reclamam que vêm tendo prejuízos com os fretes por conta do aumento no preço do diesel ao consumidor. Eles argumentam que o aumento do preço do combustível ocorre justamente num momento no qual o preço do frete está em queda na maioria das regiões do país, em razão da retração econômica, da queda nos preços das commodities e agravado por um modelo de incentivo à venda de caminhões dentro da política de aumento do consumo colocada em prática nos últimos anos.

O reajuste do diesel se deve ao aumento das alíquotas de PIS/Cofins e Cide incidentes sobre a gasolina e o diesel, definida no âmbito do pacote de ajuste fiscal. O governo chegou à conclusão de que não pode mais abrir mão de tais receitas, que são necessárias para fazer frente às elevadas despesas, uma vez que o país precisa mostrar responsabilidade fiscal para retomar a confiança dos investidores.

Fica claro que a sociedade brasileira é que vai pagar a conta das barbeiragens dos últimos quatro anos

O elevado preço do diesel no mercado doméstico acontece quando o mundo se beneficia da queda do preço do petróleo, que, após um grande período na casa dos US$ 100 por barril, teve o seu preço reduzido pela metade. No entanto, no Brasil não haverá esse benefício, dado que a Petrobras já anunciou que não reduzirá os preços nacionais, o que significa que o país continuará tendo a sua política de preços de combustíveis totalmente desconectada do que ocorre no mercado internacional. A receita “extra” que a Petrobras vinha auferindo desde novembro de 2014, e que agora está terminando em função da desvalorização do real frente ao dólar, vinha ajudando o caixa da empresa e contribuindo para aliviar a situação de penúria da Petrobras, que convive com elevado nível de endividamento, dificuldades de acesso a crédito e, agora, a perda do grau de investimento. Desde 2011, a empresa perdeu cerca de R$ 55 bilhões ao vender combustíveis no mercado doméstico mais barato do que no mercado internacional, por causa de uma política de incentivo artificial ao consumo e da preocupação com o controle da inflação.

Pelo exposto anteriormente, fica claro que a sociedade brasileira é que vai pagar a conta das barbeiragens dos últimos quatro anos. E a conta não é pequena e foi criada pela leniência com a qual a Petrobras, o setor elétrico e as finanças públicas brasileiras foram tratadas nos últimos anos. E o governo cobra a conta tanto do consumidor quanto do contribuinte. Passamos a ter uma gasolina, diesel e energia elétrica com preços totalmente desconectados da realidade internacional, para pagarmos a conta criada pelo governo nos últimos quatro anos. A consequência é que a opção recorrente do governo por políticas de curto prazo, pelo desrespeito às leis de mercado e aos preços relativos vai prejudicar, e muito, a recuperação da economia brasileira. Mais uma vez, estamos na contramão do mundo, que vai aproveitar a energia barata para crescer e reduzir a inflação, enquanto aqui continuaremos a perder competitividade frente às demais economias, com o aumento do custo Brasil e, o pior, o crescimento do desemprego.

Fonte: O Globo, 11/3/2015

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