Pergunta: alguém fiscaliza o que o Aerolula traz do exterior? Durante muitos anos, minhas viagens aos Estados Unidos foram marcadas por uma frustração enorme. Naquela época, não custa lembrar, o ir ainda era bom. A imigração aprontava das suas, com certeza, mas as histórias de horror que patrocinava eram tão raras que ganhavam destaque nos jornais. Ninguém precisava se despir de bom-senso, dignidade e sapatos na aduana, e as autoridades pensavam (!) antes de atropelar os direitos dos visitantes. Aqui, por outro lado, reinava a reserva de mercado, um equívoco político e econômico que atrasou o desenvolvimento tecnológico do Brasil em pelo menos duas gerações. Enquanto lá uma turma de garotos hoje cinqüentões (e miliardários) inventava um mundo novo, os garotos daqui eram forçados por um governo imbecil e reacionário a reinventarem a roda. A reserva — que, paradoxalmente, unia militares a comunistas como o vosso Aldo Rebelo — proibia a entrada no país de qualquer coisa relacionada à informática. De caixas de disquetes a computadores, nada podia entrar. O que nos salvou da ignorância completa foi o denodo dos “executivos de fronteira”. Brincadeira? Nem tanto. Honestamente, acho que todas as universidades brasileiras deveriam erguer em seus campi monumentos ao contrabandista anônimo, essa figura essencial ao desenvolvimento do país. Pois saía eu do nosso brejal bizantino e, doze horas depois, aterrissava num país onde havia de tudo para comprar nas lojas. Os americanos não precisavam ligar para ninguém e falar em código, não precisavam ir buscar a muamba, nada! Todos tinham acesso ao que havia de mais moderno, abertamente. Parece bobagem de nerd, mas acreditem: o sentimento de inferioridade e de exclusão experimentado pelos brasileiros antenados em tecnologia era desesperador. Nós sabíamos o que a distância daquelas máquinas significava, e ficávamos para morrer. Ao mesmo tempo, todos tínhamos amigos empresários que já haviam sido vítimas da fiscalização. Ela atacava nos momentos mais inesperados e roubava os bens de informática que encontrava — para, depois, distribuí-los tranqüilamente em Brasília. O ódio que isso dava! * * * Depois a reserva acabou, a tecnologia mal ou bem chegou ao Brasil e houve um breve tempo em que fomos quase felizes. Estávamos empatados com o resto do mundo. Lojas como a CompUsa ou a Fry’s continuavam despertando inveja, é claro, mas num grau administrável — mais ou menos como qualquer supermercado francês, digamos, desperta a inveja dos gourmets de todo o planeta. Nunca pensei que pudesse voltar a ter os sentimentos malsãos da época da reserva — mas eis que, há dez dias, me peguei em plena Circuit City com a mesma sensação de impotência dos velhos tempos. Tive até certa dificuldade em identificá-la; mas não, não havia dúvida. Aquela sensação de exclusão, aquela mistura de náusea e de revolta não tem paralelo. Dessa vez a culpa foi da estúpida carga tributária que nos cai sobre as costas, e que é igualmente contraproducente. Nossa renda per capita está em US$ 4,3 mil, contra os US$ 42 mil dos EUA — mas, apesar disso, pagamos de duas a três vezes o que se paga lá por produtos de tecnologia. Além disso, os impostos americanos são às claras, ao passo que os nossos vêm maliciosamente camuflados. A exemplo do índice Big Mac de custo de vida, publicado pela Economist há 20 anos, a ZDNet apresentou, há uma semana, seu primeiro índice iPod, em que foram comparados os preços do Nano 2Gb em vários países. O que a revista descobriu? Ora, nada que seja surpresa para nós, contribuintes esfolados: no Brasil, país mais caro do mundo, o aparelho, que custa US$ 144,20 para os canadenses, sai a US$ 327,71. Muito distante da Índia, segundo lugar entre os mais caros, com o iPod a US$ 222,27. Os Estados Unidos ficam em quarto entre os mais baratos, com o iPod a US$ 149; os alemães pagam US$ 192,46, os franceses US$ 205,80, os australianos US$ 172,36. Um iPod não é artigo essencial à sobrevivência humana, mas o contexto em que ele se insere é vital. É através do uso cotidiano da tecnologia que se aprendem os macetes de um mundo cada vez mais vez mais conectado. A ZDNet apenas escolheu um objeto emblemático para seu índice; se comparasse o preço de processadores, câmeras ou microscópios, o resultado não seria diferente. Se o nosso custo de vida e a nossa exclusão digital tivessem como objetivo a construção de uma sociedade mais justa, com bons serviços, bons hospitais e boas escolas, ninguém poderia reclamar dos impostos. Mas há poucas coisas mais deprimentes do que ver o dinheiro que nos custou tanto esforço financiando as regalias e as maracutaias do governo. Aliás, gostaria muito que alguém me respondesse a uma pergunta básica: quando o Aerolula volta de viagem alguém lhe fiscaliza o conteúdo, ou o avião presidencial é a Nave Mãe do Contrabando?

O Globo, Segundo Caderno, 25 de janeiro de 2007

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3 comments

  1. José

    Que texto de merda. Essa mulher é doente mental?

  2. Cristiana Castro

    Esse não deu nem para ler até o fim.

  3. Marta

    Excelente texto!!

    Quanto ao José e a Cristiana dos comentários, estes merecem o país em que vivem. Provavelmente nem eram nascidos nos anos 80 e, muito certamente, sequer devem pagar suas contas.